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"Nunca fui uma menina bem-comportada. O mundo é dos ousados"
A cantora Cristina Branco lança novo disco 'Menina'
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Miguel Azevedo
19/09/2016 16H37
Foto: D.R.

Aos 43 anos, talvez se possa dizer que a Cristina Branco deu à luz uma menina. Que menina é esta?
[risos] Esta é uma menina do nosso tempo que pode também representar várias meninas. No fundo, este título é uma brincadeira minha porque a mulher, em qualquer estádio da sua idade, é sempre tratada por menina. Meninas há muitas e este disco acaba por ser muito feminista, que, partindo de mim, fala de todas nós. A idade aqui não interessa para nada. Os 43 anos são completamente irrelevantes para o caso [risos].

A Cristina surge neste disco com uma série de compositores improváveis, como Filho da Mãe, Peixe, Nuno Prata, André Henriques (Linda Martini), Cachupa psicadélica ou Kalaf. Estamos perante uma menina que descobriu um novo grupo de amigos?
[risos] Eu acho que esta é uma menina que de repente ficou mais atrevida. Não é que eu tivesse andado desatenta nos últimos anos, mas se calhar, durante algum tempo, achei que eles podiam não estar em sintonia com aquilo que eu lhes pudesse pedir. Agora, finalmente, acho que perdi esse medo, até porque há um tempo para tudo acontecer.

Mas há alguma coisa de rebeldia no meio disto tudo?
Rebelde eu sempre fui, felizmente [risos]. Nunca fui a menina bem-comportada. Aliás, eu acho que o mundo é dos malcomportados, dos ousados e dos que arriscam. Por aí eu sou bastante malcomportada [risos]. Cheguei a uma altura da minha vida em que não tenho nada a perder. Apetece-me ousar, arriscar e virar as pessoas do avesso com as coisas que digo. Até a minha própria voz já não está tão uniforme como era até aqui. Para passar a mensagem destas canções acho que neste disco a minha voz está mais ousada e agressiva, mais grave.

E até que ponto esta ‘malta nova’ teve liberdade para escrever para si?
Teve total liberdade. Eu dei-lhes apenas uma diretriz que foi um texto meu em torno desta ideia de estar a atravessar uma fase em que me sentia bem. Foi esse o ponto de partida, até porque é assim que eu arrumo ideias. Esse texto fi-lo para mim mas acabou por passar pelas mãos de alguns deles.

O que dizia esse texto?
Era um texto que passava a mensagem de que é preciso falar da mulher. Era sobretudo um texto de mulheres, não são para mulheres, mas que fala dessa força humana. Por isso, este disco acabou por se centrar muito na feminilidade, acabou por se transformar num disco feminista que fala de um movimento de mulheres. No fundo, eu acho que cada um de nós tem um bocadinho de mulher e dessa sua força. Foi isso que eu passei a todos os compositores. De resto, eu não sou carrasco de quem escreve [risos].

Como é que a Cristina Branco acompanha esta nova geração de músicos portugueses?
Estou sempre atenta. Fui acompanhando a carreira deles todos. Nos dias de hoje, com os Spotifys, os iTunes e o YouTubes desta vida pode-se ver e ouvir de tudo. A determinada altura proporcionou-se conhecer alguns deles e em várias conversas todas estas participações começaram a fazer sentido.

O Jorge Cruz, dos Diabo na Cruz, é um dos compositores deste disco. Ele tem manifestado uma apetência especial para escrever para mulheres!
Sim. Para mim é um dos grandes letristas dos nossos tempos. Eu acho que ele é a grande novidade nesta área, de alguém que escreve na perfeição sobre o quotidiano. É mais um grande observador da sociedade

E porquê só letristas convidados? Porque não um disco da Cristina Branco com textos da Cristina Branco?
Porque quando escrevo é tudo muito cru. Eu acho que não tenho a linguagem apropriada. Costumo dizer que não consigo ver o meu nome entre o Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa [risos]. A cada um o seu papel. O meu é o de interpretá-los e de cantá-los. Escrevi uma vez no meu segundo disco, mas na verdade nunca cantei esse texto em público.

No meio desta gente nova que aparece no disco, lá surge o nome da Amália. É uma forma de lembrar como tudo começou?
Não foi propositado. Esse texto ‘Ai Esta Pena de Mim’ está lá por causa daquela crueza e tristeza que é tão tipicamente feminina e tão tipicamente Amália. O ‘Ai Esta Pena de Mim’ é assim uma espécie de desilusão com tudo. Ela chega a estar com pena de si própria e esse é um sentimento profundamente feminino. Mas há uma coisa que é importante dizer: é que o fado é qualquer coisa da qual eu jamais me posso desligar. Está sempre lá e está sempre presente. Eu posso cantar uma grande rockalhada mas ao fado voltarei sempre [risos].

Ainda se recorda da primeira vez que ouviu Amália Rodrigues?
Recordo perfeitamente. Foi num disco que o meu avô me ofereceu. Quer dizer... eu não acredito que essa tenha sido a primeira vez que ouvi a Amália ou a primeira vez que ouvi fado, mas foi seguramente a primeira vez que me tocou. Tinha 18 anos.

A Cristina ainda assim começou muito tarde na música. Porque é que levou tanto tempo a acreditar que o seu caminho era por aqui?Demorei, mas não sei se foi por não acreditar. Eu tinha outros interesses embora não queira dizer que eu já tivesse os meus objetivos traçados (risos). Quando a música entrou na minha vida, eu estava determinada a ser jornalista, mas também sabia que queria mais coisas. Houve uma altura em que eu acho que até andei um pouco perdida (risos). Por isso, acho que a primeira vez que cantei ao vivo, entrei em casa a dizer que era aquilo que eu queria fazer da minha vida. Tinha 20 ou 21 anos.

Mas havia alguém na sua família ligada às artes ou à música?
Não. Nada! Eu comecei foi a acompanhar as coisas que o meu irmão mais velho ia ouvindo. Mas, de resto, nunca ninguém da minha família cantou ou tocou. Parece que o meu avô, porque viveu algum tempo em Cabo Verde, costumava embalar a minha mãe a cantar uma mornas quando ela era pequenina. Mas acho que é a única coisa.

Catorze discos em 19 anos não é uma marca muito habitual. É por insatisfação artística?
Claro que há sempre uma insatisfação e uma necessidade de querer fazer mais, sobretudo porque acho que tenho sempre coisas para dizer. Mas eu nunca os contabilizei. Já vou assim nesse número tão avançado?

Aproveitando o facto de este disco se chamar ‘Menina’, como é que foi a sua meninice?
A minha meninice foi fabulosa. Fui uma menina muito feliz. Tenho muitas recordações fantásticas daquela altura. Eu acho que quando estou menos bem é a esse território da minha meninice que regresso para me restabelecer.

Que memórias lhe ocorrem quando pensa na sua infância?
Sem dúvida os meus avós maternos e tudo o que está associado a eles, nomeadamente uma coisa que tem a ver com música e que eu na altura não percebia, que é o facto de eles terem lá em casa o que parece um daqueles pátios andaluzes. Lembro-me muito bem de ir com um vassoura para o meio do pátio e de estar ali a cantar e a imaginar que à minha volta estavam camarotes com pessoas a assistir.

O que é que cantava nessa altura?
Sei lá [risos]. Eu inventava músicas e letras. Aquilo era uma alegria.

A que brincava mais uma menina que vivia em Almeirim?
A tantas coisas. Lembro-me que a minha avó paterna era ótima a cozinhar. Era como uma daquelas avós dos filmes que fazem as tartes e preparam os doces para o inverno. O meu avó era carpinteiro e fazia muitas coisas para os netos brincarem. Lembro-me de um mundo pequenino feito à nossa medida. Depois em casa dos meus avós maternos havia imensos campos para cultivar e eu e os meus primos aproveitávamos para ir apanhar pássaros e sapos. Fomos mesmo crianças. Ninguém nos pedia para sermos outra coisa senão meninos.

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