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"Portugal voltou a valorizar o fado e isso chegou ao Brasil"
Carminho gravou Tom Jobim com o auxilio do filho do cantor, Paulo Jobim. Conversámos com os dois
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Miguel Azevedo
09/12/2016 20H22
Foto: Vítor Mota

Este novo disco da Carminho foi gravado a convite da família Jobim. Porquê a Carminho?

Paulo Jobim - Porque ela é linda e porque canta muito. Que outra razão poderia ser? (risos) Eu já a tinha visto num festival numa homenagem ao meu pai. Fiquei nos bastidores a olhar enquanto ela cantava e fiquei muito impressionado. Depois disso estivemos juntos num jantar de amigos em que ela voltou a cantar muitas músicas do meu pai. Nessa noite, a Ana, a esposa do meu pai virou-se para a Carminho e perguntou-lhe: "porque é que não grava um disco de músicas do Tom?". E ela parece que aceitou o desafio (risos).

Carminho - E foi-me logo dito que o Paulo, para além de filho de Tom Jobim, era o maior especialista na sua obra. Ele fez um cancioneiro lindo em que reuniu todas as informações sobre as canções do tom.

Paulo Jobim - Sim, ainda escrevi muitas coisas com o meu pai vivo e com a ajuda dele. São 220 músicas que estão nesse livro.

Carminho - E foi esse calhamaço que me foi logo entregue para que eu escolhesse as músicas (risos). Eu só acreditei que este disco ia acontecer quando de facto me encontrei com o Paulo e percebi que tinha a obra do Tom Jobim nas minhas mãos para poder escolher as canções que queria. Como se não bastasse ainda foi colocada à minha disposição a banda que o acompanhou durante dez anos, uma banda que curiosamete se formou no ano em que eu nasci. Para mim tudo isso estava longe de poder ser realidade. Foi uma horna e uma emoção muito grande gravar este disco.

Que relação é que a Carminho tinha até então com a obra de Tom Jobim?

Carminho - Lembro-me que entre os discos que existiam na estante da minha mãe também estavam os discos de Tom Jobim e que alguns deles eu foi descobrindo. Mas só nestes últimos quatro anos em que viagei muito para o Brasil, é que aprofundei mais o conhecimento sobre o Tom. Ele é genial e deu ao mundo uma obra inesquecível e incontornável. Quase que não tenho braços para abraçar este desafio, mas acho que fui muito atrevida (risos).

Escutar estas músicas de Tom Jobim no português de Portugal quase que as transformou em canções novas. O Paulo também sentiu isso?

Paulo Jobim - Sim. E até acho que algumas letras se valorizaram no português de Portugal. Há poemas de Vinicius, por exemplo, que são escritos na segunda pessoa que nós quase não usamos. Lá é tudo você, vossa mercê. Acho que o colonizado tinha que falar assim e isso ficou. A Carminho não gosta (risos).

Carminho - A teoria do Paulo é que eu sou a colonizadora e ele o colonizado e por isso ele tem que me tratar por você e eu tenho que o tratar por tu. Eu acho justo (risos).

Como é que o Paulo vê estas músicas de Jobim convertidas ao fado?

Paulo Jobim - Eu não sinto propriamente que tenham sido convertidas ao fado. O que eu sei é que a Carminho já nasceu no fado. Ela é uma fadista, tem esse lado todo da emoção e isso influencia a maneira dela cantar. Só que também há sambas. Eu acho que mesmo que ela cante rock n' roll ela nunca vai deixar de ser a Carminho que nasceu numa casa de fados. Ela diz que tem fotos de criança em pijama com os melhores músicos de fado a tocar com a mãe. E isto é uma coisa que não sai da cabeça.

Não só a Carminho mas também o António Zambujo estão neste momento a fazer grande sucesso no Brasil. Os brasileiros estão finalmente a redescobrir o fado que está para lá de Amália Rodrigues?

Paulo Jobim - Eu acho que isto não é só um fenómeno do Brasil. Eu acho que é um fenómeno de Portugal que voltou a valorizar o fado. A Carminho já foi várias vezes ao Brasil e é sempre muito bem recebida. Acho que o fado renasceu em Portugal e isso claro que chega ao Brasil.

Mas a música portuguesa no Brasil continua a ser para um nicho de mercado, ou não?

Paulo Jobim - Eu acho que começa a não ser. Acho que começa a chegar ao público. A Carminho já gravou com todos os artistas lá no Rio e os brasileiros sabem disso.

Carminho - Eu acho que esta coisas dos brasileiros gostarem de fado vem de uma espécie de inconsciente retribuição de muito amor e conhecimento que os portugueses também têm da música e da cultura brasileira e do facto de terem recebido sempre bem as novelas, os cantores e os atores. É verdade que isto de Portugal se estar a reconhocer também leva aos outros a respeitarem-nos mais. Isto é como a autoestima, se nós nos sentimos bem como somos e com o que somos os outros também nos vão aceitar melhor. E isso não acontece só na música. Nós temos neste momento vários atores portugueses a chegar com sucesso ao Brasil. De repente eu vejo uma música minha, a 'Chuva no Mar' que gravei com Marisa Monte na banda sonora da novela das 09h00 e logo como canção do principal par romântico. Eu sempre me habituei a ver isso ao contrário, novelas de cá com canções de lá.

Como é a relação do Paulo Jobim com Portugal?

Paulo Jobim - Eu adoro Portugal. A primeira vez que vim a Portugal foi de navio, eu, a minha mãe e a minha irmã. Apanhámos um motorista de táxi que a determinada altura se virou para trás e nos disse: "mas que raio de lingua estrangeira é essa que eu estou a perceber tudo o que vocês estão a dizer" (risos).

Carminho - É engraçado que a primeira vez que o Paulinho chegou a Portugal foi de navio e a primeira vez que eu cheguei ao Brasil também foi de navio. Eu entrei no Brasil exatamente no mesmo local dos nossos navegadores.

E o que é que o Paulo mais gosta em Portugal?

Paulo Jobim - Acho que gosto de tudo, da comida à paisagem. Meu Deus! o vinho aqui é fabuloso. E depois como músico já rodei um pouco por Portugal inteiro, do Minho ao Algarve. É dificil não gostar de Portugal. Vocês são um povo magnífico. Eu tenho um músico amigo que andou a tocar pela Europa toda e quando chegou a Portugal disse: "Finalmente posso pedir pão com manteiga que as pessoas percebem-me" (risos).

Carminho - E há muito em comum, tirando o facto do brasileiro ser mais alegre do que nós apesar de também ter as suas tristezas.

Paulo Jobim - Mas isso é só porque não existe pecado abaixo do equador (risos). Acho que foi o Papa que decidiu isso.

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