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“Quando sou criativa tenho de o ser até a cozinhar. Esta é a minha forma de estar"
Rita Redshoes tem novo mdisco 'Her', um álbum que reúne um leque de músicos de luxo
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Miguel Azevedo
16/11/2016 17H44
Foto: D.R.
Este disco, ‘Her’, é como o título sugere um disco sobre uma "ela", neste caso sobre si?

Sem fazer discos autobiográficos, é verdade que não consigo deixar de escrever sobre o que vou vivendo. O que faço é uma espécie de simbiose de várias coisas, o que resulta na minha perspetiva sobre uma vivência qualquer, minha ou de outra pessoa. Este disco não foge a isso, mas tem uma perspetiva muito mais feminina e feminista. E claro que isso tem a ver com a altura em que me encontro, com a idade que tenho e com algumas preocupações, nomeadamente com o papel da mulher na sociedade

Neste disco, a Rita surge com uma série de convidados de luxo, entre eles o Knox Chandler [já trabalhou com R.E.M., Depeche Mode ou Siouxie and the Banshees] e o produtor Victor Van Vugt [Nick Cave e Beth Orton ou P.J. Harvey]. Como é que o seu caminho se cruza com eles?

Este disco tem de facto uma série de nomes com os quais nunca tinha trabalhado e, por isso, pela primeira vez o processo foi completamente diferente. O disco nem sequer foi gravado cá. Gravei-o em Berlim, durante um mês e meio, com o produtor Victor Van Vugt, um australiano que vive na Alemanha mas que conheci em Nova Iorque [risos]. Foi ele que me foi sugerindo alguns nomes. De repente, um dia, tenho a sorte de abrir um email e ver uma lista de nomes que tocaram com alguns dos meus ídolos desde a adolescência [da lista fazem parte Earl Harvin, baterista dos Tindersticks, e Greg Cohen, baixista de jazz que já acompanhou Tom Waits, David Byrne, Elvis Costello, Bob Dylan ou Lou Reed].

E como é que correu esse encontro em estúdio?

Ainda temi que todo este processo pudesse ser um pouco frio, mas a verdade é que todos foram muito generosos. Eles conseguiram entrar perfeitamente nas canções e no meu universo musical e isso acabou por ser muito importante na forma como eu acabei por conduzir as canções.

Esse período em Berlim foi uma fuga ou uma casualidade?

Foi um pouco das duas coisas. Acabei por ir parar a Berlim porque o Victor vive lá e era mais fácil eu ir ter com ele. Mas eu também procurava essa experiência, de sair das minhas águas, ir para fora de pé e estar um mês e meio numa cidade que não conhecia, sem amigos e família, só focada no trabalho.

Há uma forte componente de cordas neste disco que o transforma num quase clássico contemporâneo. Já partiu para Berlim com a ideia?

Na minha primeira conversa com o Victor quis logo definir o caminho a seguir e o que pretendia era de facto uma sonoridade clássica, mas que fosse arrojada ao mesmo tempo. E o Victor quando ouviu as maquetas que eu tinha gravado percebeu que de facto havia espaço para isso. Na altura até lhe fiz uma lista com canções que são referências para mim e todas elas tinham cordas e esta sonoridade um bocadinho antiga. Nós até começámos a fazer os arranjos de cordas para as canções com o Knox e só depois é que a banda entrou.

Pela primeira vez grava em português. É sinal de maturidade?

Essa é uma leitura possível. A verdade é que sentia há algum tempo vontade de fazer canções em português e de cantar na minha língua. O problema é que a escrita nunca me tinha surgido em português, pelo menos em formato canção.

Mas por uma questão de estilo ou de falta de confiança?

Acho que ainda não tinha encontrado uma forma de me exprimir na minha língua porque todo o meu background era em inglês. O curioso é que desta vez as coisas saíram de forma instintiva e clara, e isso deu-
-me confiança. É engraçado que em estúdio tive de ir fazendo umas traduções para que os músicos percebessem o que estava a cantar. Cheguei a traduzir para inglês e tudo. Às tantas, o Victor disse-me que mesmo que fosse russo era o português que escolhia, porque as canções tinham imensa força assim.

Mas agora que já tem a experiência de escrever em português e em inglês, afinal qual é que dá mais trabalho ?

É mais difícil escrever em português, ainda para mais para quem começa a fazê-lo tarde como eu [risos]. A língua portuguesa tem nuances que em escrita é maravilhosa e a sonoridade falada ou cantada é muito mais dura do que a inglesa. É tudo mais fechado e o grande desafio é tornar as palavras mais musicais. E isso exige muita ponderação na escolha das palavras e na forma como elas encaixam na métrica e na melodia.

Mas já se sente confortável a cantar em português?

Sim, eu não gravei em português apenas por teimosia. Não só me sinto à vontade como sinto que o que escrevi em português tinha de ser escrito mesmo daquela forma.

Já que fala na escrita, a Rita Redshoes faz parte de uma nova geração de músicos que tem especial cuidado com a palavra cantada. Até por causa do recente Nobel da literatura atribuído a Bob Dylan, será que estamos perante uma nova era na canção pop e na forma das pessoas olharem para ela?

Acho que como em todas as artes, como na literatura, há bons livros e maus livros. Com as canções passa-se exatamente a mesma coisa, seja em que género for, da pop à ópera. Há canções que são profundíssimas e que se não fossem canções seriam certamente poemas. Na música pop há frases ou versos que são completamente emblemáticos como o ‘I can’t get no satisfaction’ dos Rolling Stones ou o ‘The answer, my friend, is blowin’ in the wind’ precisamente do Bob Dylan. Mas para mim o mais engraçado disto tudo foi assistir ao silêncio do Dylan.

Este prémio já deu muito que falar e fez correr muita tinta. Também ficou surpreendida com ele?

Sim, claro que fiquei. De manhã quando li a notícia fui apanhada de surpresa, e nem sabia que o nome dele já tinha sido sugerido por várias vezes. O curioso e o que acho que se deve retirar disto é de repente a academia sueca começar a pensar fora da ‘caixa’. Fiquei feliz por este prémio e nem sequer coloco a questão se "é ou não é merecido". Isso é uma questão tão ambígua.

A Rita Redshoes faz seis discos em oito anos, o que é uma produção pouco frequente. Isto quer dizer que é difícil para si encontrar satisfação artística?

Se é verdade que há muita insatisfação da minha parte, também há sempre coisas a fervilhar. Tenho sempre a noção de que a vida é curta e que quanto mais coisas eu fizer, mais vivo, mais aprendo e mais levo desta vida. Às vezes, quando alguém vem ter comigo com uma proposta que até possa ser fora da minha carreira a solo, mesmo que esteja atolada em trabalho, pondero sempre se consigo fazer mais qualquer coisa. É muito libertador fazer coisas fora da minha carreira a solo. Quando sou criativa tenho que o ser até a cozinhar [risos]. Esta é a minha forma de estar em relação às coisas.

E esse processo de criação costuma ser uma coisa pacífica para si, ou quando entra nele é em profundo isolamento?

Não, eu não sou nada desses mitos, como aqueles que ficam de mau humor e tudo [risos]. Há muitas histórias à volta disso, mas a criatividade dá muito trabalho. Claro que há momentos em que uma pessoa se sente mais inspirada e disponível para escrever e para criar, mas isto também é uma coisa que funciona muito à base da tentativa e do erro. Às vezes isolo-me por uma questão de concentração. Conheço pessoas que são capazes de escrever uma canção no final de um jantar com amigos. Eu não sou capaz. Dificilmente poderei criar alguma coisa, por exemplo, sentada à mesa de um café.

Passam vinte anos desde o início da sua carreira quando começou a tocar bateria! Como foi esse início?

Parece que foi ontem [risos]. Acho que há alguns pontos em relação à música em que estou exatamente igual. Quanto tenho concertos, por exemplo, a excitação é a mesma. A vontade e o gosto pela música, inclusive de tocar com outras pessoas, continua igual. E o carregar o material também continua [risos]. O que sinto é uma bagagem diferente. Tenho mais história. Mas continuo a ver-me como aquela miúda cheia de vontade de fazer música e de ensaiar na garagem. E isso acho que dificilmente vai mudar em mim.

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