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"Sou a mesma miúda com preocupações e contas para pagar"
Elevada a referência do fado nos últimos três anos, Gisela João lançou de surpresa o novo disco, ‘Nua’, um álbum de ‘clássicos’
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Miguel Azevedo
23/11/2016 19H42
Gisela João gravou o novo disco fora do ambiente normal dos estúdios, entre o Palácio de Santa Catarina, em Lisboa, e a Cidadela de Cascais. ‘Nua’ dá voz às palavras de alguns poetas da atualidade, visita temas clássicos e tradicionais e conta com dois temas com letra e música de Cartola

Sabendo que havia uma expectativa tão grande em relação ao seu segundo disco, porque é que fez tanto segredo?

Porque até há muito pouco tempo ainda não tinha parado para pensar bem nele. As coisas correram muito bem com o primeiro disco e deixei de ser dona da minha vida, sempre a andar de um lado para o outro. Não podia parar um, dois ou três meses só para gravar. Este disco nasceu de músicas que fui gravando e experimentando. De repente chegou uma altura em que disse: "É isto que quero fazer e é para sair já!". Na verdade estava farta de esperar

E parece que não era só a Gisela que estava farta de esperar!
Nos últimos tempos as pessoas enviavam-me muitas mensagens e comentários pelas redes sociais a perguntar quando é que voltava a gravar. Chegou uma altura em que já nem tinha cara para responder. Mas as coisas não funcionam por botões: "É carregar aqui e sai um disco". As coisas têm de fazer sentido. A música e a arte em geral têm de ter o seu tempo, têm de acontecer quando e como tiverem de acontecer. Se um dia decidir que faz sentido gravar uma canção com vinte minutos, irei fazê-lo. Uma vez ouvi um pianista de que gosto muito dizer que na música não há espaço para egos e descobri naquela frase aquilo que sempre senti mas que nunca tinha conseguido traduzir. Às vezes temos de anular o nosso ego.

E o seu ego andava grande?
Não. Claro que tenho orgulho do meu trabalho. Quem não tem quando as coisas correm bem? Mas continuo a ser a mesma miúda, com as mesmas preocupações e com as mesmas contas para pagar no final do mês. Ao contrário do que as pessoas pensam, não me tornei milionária, nem sequer cheguei lá perto. Tenho exatamente as mesmas preocupações que toda a gente.

Essa modéstia é uma questão de personalidade?
Vim de Barcelos e no Norte, ali nos anos 90, quando se abriu a porta ao Oriente para a manufatura, o Minho, que era onde estavam as fábricas e as empresas, sofreu muito. Muitas delas fecharam e faliram. E vi essa drama bater à porta de muitos coleguinhas de escola. Por isso sempre percebi aquilo que a minha mãe e a minha avó me diziam muitas vezes: "Hoje estamos bem, mas amanhã não sabemos". E então nesta área da exposição pública ainda é pior.

Porquê?
Porque se passa de besta a bestial numa fração de segundo. Por isso, prefiro continuar com a minha vidinha normal, não me iludir ou achar que sou a última Coca-Cola do deserto, até porque não sou mesmo.

Estes elogios que foi recebendo ao longo deste três últimos anos deram-lhe confiança e responsabilidade ou medo e insegurança?
É muito fácil responder a essa pergunta. Deram-me muito medo e insegurança. Quando vejo aqueles miúdos nos programas de talentos que dizem que querem ser famosos, isso faz-me muita confusão. Tudo na vida tem um lado bom e um lado mau. O lado bom da minha vida é maravilhoso, porque posso fazer aquilo que mais gosto, que é cantar.

E o lado mau é…
É, por exemplo, sair à rua num dia menos bom, em que por qualquer motivo até estive a chorar, e ser abordada por uma pessoa que quer tirar uma fotografia comigo. São pessoas que não sei quem são mas que sabem quem eu sou.

Sentiu muito a pressão dos outros?
Uma coisa que me aconteceu muito, mal punha o pé na rua, foi ter as pessoas a perguntarem-me, até os meus amigos, quando é que lançava um disco novo. E às vezes, pior do que isso, ainda me diziam: "Olha que tem de ser melhor do que o primeiro". Por isso, a determinada altura, comecei a ficar com medo e assustada porque percebi que a expectativa dos outros era muito grande.

Há artistas que não sabem lidar de todo com essa expectativa…
Sim, e acho que sou um deles. Ainda por cima sou uma chorona. Sou minhota, pronto!

E como é que ultrapassou isso?
Um dia estava com os meus gatinhos e lembro-me de ter pensado: "Calma Gisela, o que tu tens de fazer é exatamente o que fizeste para o primeiro disco".

Ou seja?
Quando fazemos alguma coisa para agradar aos outros dá sempre asneira. Onde é que nós ficamos? Não há nada melhor na vida do que fazer as coisas de peito cheio, acreditar no que se faz e dar o que temos. Quando assim é acho que conseguimos lidar com todas as críticas, boas ou más.

Que significado tem esta nudez no disco, na capa e no título?
Hoje em dia chateia-me muito o exagero do uso do corpo da mulher e da nudez, só porque vende. Neste caso não tem nada a ver com isso. Sou uma fã do Godard e nos filmes dele o corpo aparece sempre representado de uma forma muito bonita. Quando cheguei à escolha das músicas para este disco fui percebendo que cada uma delas era um bocadinho de mim. Era como se me estivesse a despir e a ficar nua a cada música.

A Gisela como nunca a vimos!
Sinto que me exponho de cada vez que canto, já sentia isso no primeiro disco e sinto de cada vez que canto nas casas de fado. Só que desta vez, como existia a tal pressão, tive de voltar ao início, um ‘back to basics’. Então o que fiz foi separar umas músicas de uma seleção que tinha feito de temas que gostava de gravar. Não foi fácil chegar a estas treze e separar-me de outras. Portanto, esta é uma nudez da personalidade e da alma.

E com este novo trabalho consegue um disco de fado com uma capa muito pop!
Não ligo a isso. Sou uma pessoa muito livre e comigo tudo é possível. O sonho é das melhores coisas que nós temos na vida. Ninguém nos pode proibir ou dizer como devemos fazer. Portanto, para mim não existe uma formato da capa de fado. Isso é triste e é isso que afasta as pessoas. Quero é fazer uma coisa com arte e uma coisa que fique.

Gravar um disco de versões afinal é ou não um trabalho de risco?
Nunca pensei nisso. Parto do princípio que o fado é algo que vem de dentro e está ligado às nossas vivências e à forma como sentimos as coisas e as palavras. Nunca vou cantar igual à Amália ou à Argentina Santos, por exemplo. Nunca vou cantar igual a nenhuma delas porque a minha vida foi diferente da delas. Eu, por exemplo, sou uma pessoa hiperativa, sei lá se elas eram (risos). Isto é como contar uma piada que nos aconteceu a um amigo e ele não achar piada nenhuma porque não a viveu.

Este disco é então a banda sonora da sua vida?
Sim. E mais: quando canto aquelas canções, sinto como se elas fossem minhas.

 

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