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Crónicas
O Dicionário do Amor
Dever
por Pedro Chagas Freitas
Sete textos para ler quando tiver medo de continuar.
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SEGUNDA-FEIRA 24 OUTUBRO - 11H

Dever: s.m. Aquilo que, apesar de ser obrigatório, não deve ser feito por obrigação. Tens, muitas vezes, o dever de fazer o que não se deve.

 

(sete textos para leres quando tiveres medo de continuar)

1. Escreve-se para que uma espécie de pele toque no mundo. A solidão necessita de companhia, caso contrário é apenas infelicidade. Os momentos que persigo acontecem no intervalo das certezas, enquanto a razão esfrega um olho. Trato as palavras como se fossem perigosas, e são. Todas as lágrimas são palavras a mais ou palavras a menos, como todos os conflitos, aliás. Ninguém vê o mundo, apenas o que resta da integração do mundo em nós. Vivemos o que sobra da colisão, o produto de embates sucessivos com o que nos acontece. É isso a realidade, Deus me livre dela. A criatividade é evitar o intocável, e de seguida obviamente destruí-lo. Ama-se para experimentar o inatingível.

2. O tempo não voa mas faz-nos pousar. Somos organismos com prazo de validade, a imortalidade é altamente passageira, convenhamos. Um dia acordamos e estamos com a meta à vista, sem sequer uma claque a aplaudir-nos o feito. Acaba-se sempre sozinho, por maior que seja o amor que temos connosco. Resta-nos, em vida, celebrar. Talvez seja esse, afinal, o sentido desta jornada: celebrar. Se não é, devia ser, o que quer dizer que para mim, enquanto puder, o será. A filosofia é engraçada mas é viver que me faz rir, disse o filósofo. Quando puderes diz também.

3. A apatia mata. É fácil ceder, baixar os braços, deixar que seja insustentável o que nos impede de andar. Sou uma criatura incapaz de compreender a resignação, e a isso me resigno. Sofro que nem um cão com a impossibilidade. É por isso que tento que nem um cão ultrapassá-la. Será, porventura, a única maneira de a integrar em mim sem me enojar. Quase sempre não a supero, porque sou humano, mas quase sempre me supero, pela exacta mesma razão.

4. Junto à estrada, uma prostituta com mais de sessenta anos tenta continuar. Nos olhos a vida que podia ter e nunca viveu, porque não pôde ou simplesmente porque não quis. As pessoas passam e não ligam, e é isso o que faz tudo isto continuar: a indiferença existe para que a dor magoe mais longe, como se conseguíssemos fechar os olhos ao que nos faz ver melhor. Os sentidos existem para salvar e para matar. Viver bem é tantas vezes ver mal.

5. As pessoas temem o que não é límpido, o que foge do normativo. É esse, também, o fascínio disto tudo: o mistério que cada porta esconde. Interessa-me, antes de abrir a porta, imaginá-la com precisão, contar em mim a história que ela terá para me contar. A capacidade de viver o que nunca vivemos oferece-nos grande parte da felicidade, e da infelicidade também. A escolha é, muitas vezes, nossa. Façamos disso uma vantagem.

6. O amor é o maior cabrão do mundo, e não há nada melhor. Quando me faltas, a realidade é um saco de bosta, a vida acontece para debaixo de mim, há uma certa sensação de absurdo no dia. Devia aprender-se a amar, as pessoas deviam especializar-se, mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos, sei lá, no espaço que o amor desocupa. Somos apaixonados inveterados ou seres acabados, verdade seja dita. Nunca uma pessoa mais-ou-menos apaixonada conseguiu uma revolução, a não ser uma revolução mais-ou-menos, ou mais-ou-menos uma revolução. Todas as guerras, todos os problemas afinal, são por ausência de amor, ou no mínimo por amores olhados do ângulo errado. Para o teu olho de todos os lados como se olhasse para mim, e encontro-me sempre, que alegria. Quando me faltas é como se me faltasse.

7. Nunca se encontra um culpado. À volta do que dói todos são inocentes, vítimas de um desacerto de coincidências, peões indefesos de um Diabo maior. O mais cabrão é o implícito, o que todos sabem mas ninguém quer saber. Há tanto de tédio na sociedade. Não são os mais fortes que resistem; são os mais pequenos, os que pedem e não exigem, os que calam e não se erguem. Só os que se deitam na merda conseguem adormecer nela. A mim resta-me tapar o nariz com uma mão e tentar, ainda assim, protestar com a outra. Não é fácil, claro, mas aguenta-se. Escolhe-se todos os dias entre recusar o rebanho e alimentá-lo, por mais que, malogradamente, seja o mesmo. A ser ovelha que seja negra, e não mais uns quilos de lã nas mãos dos donos. Antigamente os maus eram perseguidos, agora são entrevistados.

 

 

Dever: s.m. Aquilo que sentes quando fazes o que deves. Nunca foi por dever  que a História se fez; só por amor.

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