Clara de Sousa: "Lido bem com as minhas rugas"

"Tenho um gosto enorme pela cozinha, talento e cozinho bem, mas não é a minha área profissional"
Clara de Sousa
Clara de Sousa: 'Lido bem com as minhas rugas'
Foto: Bruno Colaço
21 dez 2014 • 09:40

Acaba de lançar o segundo livro de culinária, 'A Minha Cozinha'. É mesmo a sua cozinha?
É mesmo a minha cozinha [risos]. São as receitas que faço, que têm história na minha casa e que eu quero muito que façam história na casa das outras pessoas. Este livro é um reflexo de uma parte de mim, da parte que gosta de estar em casa, a preparar comida, a inventar. Tenho um gosto enorme pela cozinha, tenho talento, isso eu sei que sim. Mas não é a minha área profissional. Portanto, tem de ser algo verdadeiro, quase de mulher para mulher, de mãe para mãe, entre iguais.

Acaba por ser algo que é vivido por experiência própria...

Sim, sei o que é estar na pele de qualquer mulher ou homem que chega a casa e tem de fazer o jantar ou o almoço, ou tem de preparar um jantar para amigos, porque é exatamente isso que eu faço. Se têm gostado das minhas propostas ao longo dos últimos três anos, tanto no primeiro livro como nas receitas que publico semanalmente no Facebook, fico feliz. O feedback tem sido extraordinário. Uma das coisas que me deixa extremamente feliz é quando me dizem que as minhas receitas resultam sempre ou que graças a mim fizeram brilharetes na cozinha. Esse é o maior elogio que posso ter.

Quanto tempo demorou a fazer este livro?

Cozinhei-o em 11 dias seguidos. Coloquei férias na SIC nas duas primeiras semanas de junho e 11 dias depois terminei, sempre na base de uma loucura saudável. Foi cansativo mas deu-me muita alegria. Revejo-me no livro. A minha cozinha, as histórias que lá estão.

Os seus filhos, Manuel, de 18 anos, e Maria, de 15, gostam dos seus pratos, dos seus petiscos?

São sempre os piores, os mais esquisitos. Tenho de caprichar muito mais para eles. Eles estão numa fase da vida em que não desenvolveram o palato: não gostam de favas, não gostam disto e daquilo. Eu também era assim, mas depois mudei na idade adulta. O que tento fazer é insistir com eles para experimentarem. Eu tento mas não posso fazer mais do que isso. Já lá vai o tempo em que enfiávamos a papa pela boca quando não queriam comer.

A Maria também tem jeito para a cozinha?

Ela, sendo uma jovem do séc. XXI, não tem o tempo que eu tinha para a cozinha nos anos 70 e 80. Sempre gostei muito mais de estar na cozinha. O que ela tem e que eu acho que é bom é oferecer-se para fazer o almoço ou o jantar. Também acho bonito quando ela quer fazer comida para uma venda na escola ou para angariar fundos para alguma coisa.

Quem a vê todos os dias na SIC não a imaginaria a lançar livros de culinária...

Nem eu própria. Nunca me tinha passado pela cabeça escrever um livro. As coisas aconteceram de forma tão natural e não prejudicam ninguém. Sim, eu sou jornalista, faço o 'Jornal da Noite', mas há pessoas que trabalham em fábricas, têm outras responsabilidades diferentes da minha. No fundo, somos todas mulheres, mães...

Tem um horário um pouco diferente, por exemplo, não janta à hora dita normal. Quando sai da SIC ainda vai fazer o jantar?

Saio por volta das 22h00. Não faço nada que me leve muito tempo. O problema maior é ter de me deitar mais tarde.

É mais fácil agora que a Maria e o Manuel estão mais crescidos?

É mais fácil porque não tenho de mudar fraldas, dar banho, já estão independentes. Eles já estão naquela fase em que não precisam de mim, aliás se eu me aproximo, eles mandam-me logo embora. Por exemplo, quem chega às 18h00 a casa não quer dizer que esteja mais tempo com os filhos. Eles também, às vezes, chegam a casa e querem ir logo para o quarto conversar com os amigos na internet. Também tenho esse problema mas tento insistir para que não seja tanto assim. Mas os meus filhos estão cada vez mais independentes.

O Manuel ou a Maria querem seguir jornalismo?

Nada disso. Ele está na área de multimédia e ela estuda economia.

Tudo o que sabe de cozinha foram ensinamentos da sua mãe [Maria Eugénia, já falecida]?

Sim, mas também da minha curiosidade, de perguntar. Tem de haver interesse. No meu caso, o meu quarto era perto da cozinha, quando me levantava já cheirava a café e a pão. Eu ia para a cozinha e ajudava a minha mãe, mas também lhe fazia perguntas. Há coisas que eu sei que ela me disse e que nem ficaram apontadas. Mas ficaram guardadas na minha memória. A minha mãe foi a minha primeira escola. Tudo o resto que fui desenvolvendo foi de procura, de cursos que tirei, de pesquisas que fiz, interesse meu.

A sua mãe seria uma boa conselheira para este livro?

Sim, sem dúvida. E certamente que me daria excelentes receitas, que ela fazia a olho e que nem sequer ficaram apontadas. Ela tinha quase tudo na cabeça. Mas entretanto descobri que há uma pessoa da minha família que tem muitas dessas receitas num livrinho e estou à espera que ela mo dê para eu ver. Nos próximos tempos vou ter um reencontro com a minha mãe...

E esse reencontro poderá ser transportado para um próximo livro?

Certamente que será. Se as pessoas continuarem a querer, a gostarem e a pedirem... Isto só faz sentido com partilha. A cozinha é só isso, não é muito mais. Claro que alimenta, mas a partilha é que faz sentido para mim. Há uma coisa que os meus pais me passaram de valores, tanto um como o outro – a minha mãe através da cozinha e o meu pai [Antero de Sousa] através da horta. Ele era bancário mas é, acima de tudo, um homem ligado à terra. Dá tudo a toda a gente. Eles nunca me disseram nada, mas eu cresci a ver isso, que é a felicidade que se tem quando se dá.

Acaba de completar 47 anos. Como é que se sente?

Sinto-me muito bem. Estou numa profissão que me mantém junto de pessoas muito jovens, com ritmo. Esse espírito jovem existe e na verdade até podemos nem nos sentir com 50 ou 60 anos. A grande questão é como podemos lidar com a sensação de nos sentirmos presos no corpo de velhos. Não me sinto velha, neste momento, estou bem. Lido bem com as minhas rugas, não me chateiam. Certamente irei ter mais. Mas é assim que me reconheço. O tempo passa a correr, é como se não tivéssemos tempo para fazer tudo e, de repente, começamos a pensar que já vivemos mais tempo do que aquele que nos falta viver. Mas é melhor não pensar muito nisso, viver enquanto cá estamos, ver os filhos crescer.

Tem dois filhos adolescentes, uma relação amorosa estável [com Eduardo Militão]. É uma pessoa de bem com a vida?

Tenho o privilégio de ter uma profissão que dá sentido a muita coisa na minha vida. Começo a olhar para trás e a pensar que sempre quis algo ligado à comunicação. E o jornalismo acabou por me vir buscar quando eu estava a pensar em ser professora. Felizmente, tenho uma profissão que tudo o que me dá é um privilégio.

É mais difícil fazer hoje em dia jornalismo?

Não sei se é mais difícil. Poderá haver dificuldades acrescidas. Os tempos do jornalismo de hoje são mais rápidos do que há uns anos. Exigem mais rapidez de raciocínio e, muitas vezes, também se perde algum tempo de ponderação. Apesar de termos os dias a seguir para ir desenvolvendo as coisas, por vezes temo que a rapidez possa levar a falhar na primeira mensagem que se dá. E isso é que é uma grande preocupação da minha parte. Prefiro que a primeira informação que se dê esteja incompleta do que errada.

E as pressões existem?

Não tenho relações de amizade, nem telefones, não falo com ninguém de política. Tenho coordenadores, repórteres que fazem esse trabalho. Não trabalho essa área. Há colegas que acham que eu faço mal, outros que faço bem. Eu faço o que sinto que me dá o distanciamento necessário. E isso é algo de que me orgulho. O sentido desta profissão é essa liberdade. No dia em que isso não fosse possível, iria para a escola de hotelaria divertir-me. Ficaria muito triste por deixar o jornalismo.

Está na SIC há quase 14 anos. Vê-se a trabalhar em outro canal?

Para onde? E para quê? Não me estou a ver. Desde o dia em que entrei na SIC que senti que ia ficar por cá. Não há outra casa para trabalhar como a SIC. E digo isto porque já trabalhei em outras casas. No estrangeiro, como não sou bilingue, duvido. Falo inglês mas não chegaria para fazer o que o Pedro Pinto fez. Nem estaria interessada. Ainda por cima porque sou daquelas pessoas muito agarradas ao seu país. Quando vou de férias, passada uma semana, começo a ter comichão e tenho de voltar para o cheiro da minha terra. Sei que sou piegas, mas sou mesmo portuguesa, sentimentalmente ligada à casa, à minha família, à terra, às origens.

Seria capaz de emigrar?

Valorizo e compreendo as famílias que sofrem com isso. Eu própria irei sofrer no dia em que os meus filhos o quiserem fazer, mas também sei que os tempos são outros e que seria a primeira a dizer ‘vai’. Nunca hipotecaria o futuro do Manuel e da Maria por querer tê-los debaixo da minha asa.

Perfil

Jornalista nasceu a 29 de novembro de 1967. Ambicionava ser professora até que começou a trabalhar na rádio Echo, mais tarde, chamada Rádio Clube da Parede. Esteve ainda na Marginal. Em 91, estreou-se na TV, na RTP. Dois anos depois, mudou-se para a TVI e novamente para a RTP. Em 2000, é convidada para a SIC, onde se encontra até hoje.

Intimidades

Quem convidaria para um jantar a dois?

O chef Gordon Ramsay, desde que fosse ele a fazer o jantar.

Quem é o homem mais sexy do Mundo?

A revista 'People' diz que é o ator Chris Hemsworth. Nada a opor.

O que não suporta no sexo oposto?

Numa grande maioria, o fanatismo clubístico. Nunca conseguirei entender.

Qual é o seu maior vício?

O café, mas não causa prejuízo.

O filme da sua vida?

A lista é vasta: 'A Vida é Bela', 'O Pianista', 'Cinema Paraíso'...

Cidade preferida?

Lisboa.

Um desejo?

Um país com menos desigualdades sociais.

Complete. A minha vida é…

um conjunto de afetos e sentidos que lhe dão sentido.

 

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