Francisco Moita Flores de luto pelo pai: "Chegou a hora de dizer adeus ao meu grande herói"

Escritor deu a notícia nas redes sociais e homenageou o progenitor.
Francisco Moita Flores
O pai de Francisco Moita Flores
francisco moita flores
Aniversário Evaristo
Francisco Moita Flores
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O pai de Francisco Moita Flores
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Aniversário Evaristo
Francisco Moita Flores
Francisco Moita Flores
17 fev 2021 • 14:13
Francisco Moita Flores utilizou as redes sociais, esta quarta-feira, dia 17, para lamentar a morte do pai aos 97 anos. O escritor partilhou ainda uma sentida homenagem ao progenitor, recordando vários momentos que passou ao seu lado.

"Foi pelos seus olhos que aprendi a amar os livros. E a amar o Mundo, os animais, as pessoas. Pelos seus olhos e pela ternura da minha mãe. Íamos os dois, quinzenalmente, à Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, que estacionava em frente à Igreja de S. João Baptista. Uma fila de esfomeados, putos e graúdos, à espera de alimento. Era um homem rijo, sem horas para trabalhar, intrépido e insurreto. Não suportava o Regime e, com ele, descobri as emissoras clandestinas, que se diziam em voz sussurrada", começou por escrever. 

O escritor não esquece os livros que lhe foram apresentados pelo pai: "Mostrou-me Eça de Queiroz, Florbela Espanca, Camilo [Castelo Branco] e o Padre António Vieira, o seu escritor de estimação. E todos os outros daqui e d'além mundo. O [Ernest] Hemingway, o [John] Steinbeck, o [Miguel] Cervantes e por aí adiante. E também o Teatro. [Bernardo] Santareno, [Almeida] Garrett, [William] Shakespeare e o Canto e Castro a fazer de Tristão e a Carmen Dolores, de Isolda, no folhetim radiofónico".

O espírito solidário do progentor também não foi esquecido: "Vida dura. Em ebulição. Reparava tratores e ceifeiras. Era a ambulância do Monte da Defesa de S. Brás. Quando alguém adoecia, de noite ou de dia, saltava para o jipe e conduzia quem necessitava ao hospital de Moura". "Ensinou-me a nadar. Pescador afoito, fez-me testemunha de pescarias arrojadas. Barbos, bogas, lúcios, achigãs. E nas grandes caldeiradas junto ao rio com os seus amigos, aprendi o valor da amizade inteira e solidária. Tal como a alegria, quando os tios e os primos vinham de longe para celebrar qualquer festa", continuou. 

"Nunca desistiu. De nenhum desafio, por mais doloroso que fosse. E lia sempre. Muitos anos depois destes dias de puto, percebia a sua alegria quando lhe oferecia os meus romances ou via as séries que escrevi para as várias televisões. Encantado mas crítico. Afinal, a sua sementeira dera frutos. Os netos tornaram-se na sua maior herança e quando o Alzheimer chegou, o Sénior Care, de Brejos de Azeitão, foi a última grande homenagem ao cuidado, ao carinho que a Directora Graciana e a sua equipa lhe fizeram. Nunca mais vou esquecer estes profissionais da dádiva e do afeto", acrescentou.

No final da homenagem, Moita Flores lembrou a recente vitória do pai contra a Covid-19. "Foi uma vida longa de trabalho, de inquietação, de desassossego. E livros. Ainda venceu o Coronavírus, num último combate. Recuperou, mas a luta deixou-o frágil. Poucos dias depois desta derradeira vitória, a minha ‘irmã’ Graciana telefonou. Chegara a hora de dizer adeus ao meu grande herói. Despedimo-nos em paz. Agradeci-lhe, escorreu-lhe uma lágrima pelo rosto cansado e outra dos meus olhos, apertámos a mão e o último beijo e a última carícia. E nessa noite, quando adormeceu, o Mestre Chico Flores da Defesa de S. Brás, partiu, em sossego, depois de uma vida comprida. E cumprida! Veio aconchegar-se na minha memória. De onde nunca mais sairá", rematou. 




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