Inês Herédia: "Haverá sempre preconceito na homossexualidade"

Aos 30 anos, a atriz da TVI revela como encarou o momento em que descobriu que gosta de mulheres e fala da relação que construiu ao lado de Gabriela Sobral. Casal vive radiante com os gémeos, Luís e Tomás .
Inês Herédia
Inês Herédia
Inês Herédia e Gabriela Sobral
Inês Herédia e Gabriela Sobral
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Inês Herédia e Gabriela Sobral
Inês Herédia e Gabriela Sobral
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21 mar 2020 • 18:13
Hugo Alves
Está muito ansiosa para a estreia de ‘Quer o Destino’, a nova novela da TVI, na próxima segunda-feira?
Estou com uma ansiedade que nem calculam. Nunca estive tão ansiosa!

Mas o que é que este projeto de ficção tem para lhe causar tanta ansiedade?
A minha personagem, a Isabel, é uma jovem muito pura, sem maldade, que vai para as vindimas e se apaixona pelo protagonista [a cargo de João Vicente]. E tem ali uma relação incrível, até que aparece a Vitória [Sara Barradas] e ele a deixa. É aí que ela se descobre como pessoa e descobre a vida e depois mete-se numa história completamente fora do baralho.

Ficou feliz com o convite, ou isto era uma contrapartida devido à sua participação no programa ‘A Tua Cara Não Me é Estranha’?
Sim, foi uma contrapartida, embora tenha adorado ter feito aquele programa. Adorei e aprendi imenso, só me apetecia que existissem mais galas, embora aqui confesse que estava esgotada. Mas há uma coisa: este não foi o primeiro papel que me foi oferecido na TVI. Mas ainda bem que esperei: era para ter entrado a meio da trama de ‘Na Corda Bamba’, mas a TVI decidiu dar-me um papel de maior destaque, ou seja, esta Isabel. De qualquer maneira, puseram-me na mesa as duas opções e eu preferi fazer de empregada [risos]...

Tem receio de que as pessoas não gostem do seu trabalho?
É o meu maior medo. Porque existe o preconceito de que os betos, que é o meu caso, só sabem fazer de betos. E eu vou fazer a empregada, que nada tem a ver comigo.

Pediu ajuda a alguém?
Além da dos diretores de atores, baseei esta miúda numa amiga minha, chamada Maria, que, apesar de também ser uma beta como eu, é muito pura, de tal forma que hoje é freira de clausura.

Não ter feito a novela de Rui Vilhena, ‘Na Corda Bamba’, permitiu-lhe ter mais tempo para os seus filhos [os gémeos Luís e Tomás]?
Sim, deu-me mais um mês para os aproveitar e organizar tudo, porque subitamente, e as pessoas podem não acreditar, fica-se sem tempo. Mas quando estou em casa, e faço disso regra, não há telefones, não há nada, só eles. Isso é muito importante.

Mudou o seu foco desde que foi mãe?
Mudei muito, mesmo. É inevitável. Porque a minha vida profissional faz-me ter pouco tempo para eles. Portanto, o tempo em que estou com os meus filhos tem de ser a 100 por cento.

Com 14 meses, como estão eles?
Ainda não falam: dizem batata, o que é estranhíssimo, mãe, não, banana, papa e olá, que foi a primeira palavra [risos].

Ter gémeos é um drama?
Um é básico. Não me lixem. Mesmo que o bebé não durma, é básico. Quanto a nós, quando um não dorme, o outro acorda. E mesmo assim fizemos um treino, que eles já se habituaram ao choro um do outro. E depois pesam imenso... Estamos sem elevador. Imaginem dois miúdos, com 10 quilos cada um... Por isso, um é básico.

É uma mãe perdidamente apaixonada?
Completamente, desde o primeiro minuto. Aquilo que as pessoas dizem, que o amor pelo filho não pára de crescer, não é um cliché, é a mais pura verdade. O meu amor não tem espaço...

Como foi o primeiro dia longe deles?
Foi ainda no ‘A Tua Cara Não me é Estranha’. Estava lá 12 horas ao domingo e foi complicado o desmame. E mesmo eu, que sou uma mãe descontraída, porque eu e a Gabi [mulher, Gabriela Sobral] confiamos muito uma na outra, estava sempre a ligar a tentar saber tudo: como foi o pequeno-almoço, o almoço...

Sentiu que estava a perder pequenas coisas?
No início das gravações, achei que sim, porque estava mesmo muito tempo longe de casa. Interrogava-me se estava a tomar a decisão certa... Só que, ao mesmo tempo, depois pensava: não sou especial, isto é o que acontece a todas as mães. Até porque tenho de pôr comida na mesa. Além de que quero que os meus filhos, no futuro, vejam que sou feliz a trabalhar. Mas foi estranho aquele momento, estava sempre com culpa. Mas aprendi a lidar com isso.

Não querendo ser preconceituoso na pergunta, mas serem duas mães ajuda de alguma forma?
Não é uma pergunta nada preconceituosa. Não sei é responder justamente a isso, porque sei lá como é com uma mãe e um pai. Deixa de fazer sentido é aquela frase das minhas amigas em relação ao marido: que os maridos ajudam imenso. Não, ali a responsabilidade é das duas: a fralda é das duas, o colo é das duas e isso descansa-te. Porque sei que, se houver uma crise em casa, se alguém ficar doente, a Gabi tem tanta intuição como eu para perceber o que fazer. Além de que tem a idade em cima [54 anos].
Ela tem uma calma de vida que não tenho. Eu sou a rápida e urgente.

Há tempo para as duas?
Ou és tu a criá-lo ou não existe. É um conselho aos pais novos. Muitas amigas me tinham prevenido, e eu confesso que ouvia aquilo e não ligava. Mas depois.... Mas nós decidimos criar estes momentos só nossos. Os meus pais são incríveis e babados e ficam com o Luís e o Tomás, sempre que é possível. Às vezes, à quarta-feira já estão a ligar a perguntar se não precisamos de descansar e se eu não quero lá deixá-los [risos].

Esta sua relação e esta vossa abertura venceu o preconceito? Afinal, casou-se, assumiu uma relação com uma mulher...
O início, para o público, da minha saída do armário, é aí, quando me caso. Mas isso tinha sido construído desde que sei que gosto de mulheres. Porque queria viver uma história igual à de todos os meus amigos que não são homossexuais. E acho que fiz esse caminho tão bem, e resguardada, que, quando decidimos casar, avisámos quem era importante – e fizemos uma coisa pequena – e ficámos conscientes de imediato que ia ser público e o que íamos receber de volta...

E o que é que recebeu do público...
[Interrompe] Achei que ia ser muito mais difícil e que as pessoas não iam perceber. Mas o engraçado é que sinto que o maior choque não foi o facto de sermos duas mulheres, mas a nossa diferença de idades [risos]. E isso é um bom indicador. Porque é algo que percebo, porque aconteceu com outros artistas, como a Sara Barradas. Mas, em relação à homossexualidade, haverá sempre preconceito. Acho que tenho sorte, talvez porque sou genuína, sem filtros, e isso faz com que as pessoas se aproximem de mim e me percebam. Porque o que veem é o que sou... E acho que percebem que vivo uma história de verdade. Comovi as pessoas nesse sentido.

Falando da diferença de idades...
Temos 24 anos de diferença. A Gabriela aproveita a minha juventude e eu a sabedoria dela. Se isso não acontecesse, era impossível ter uma relação. Há entre nós muito respeito, e a Gabi nisso é incrível. Ela sabe, como já cá anda há mais tempo, e viveu mais, que há caminhos que me vão fazer sofrer, que vou cair, como é óbvio, mas deixa-me ser eu a vivê-los. E isso é a maior prova de amor que me dá. Ela não me impõe nada. Pode-me avisar, mas não me impõe nada, pois sabe que tenho de viver aquela história. E apazigua a minha ansiedade. É nisso que cresceram os pilares da nossa relação.

Custou-lhe perceber que era homossexual?
Muito! Sou católica, cresci num ambiente beto, muito conservador... mas o maior preconceito estava na minha cabeça. Não queria esta vida para mim [faz uma pausa]. E acho que esta será a resposta que 90 por cento dos homossexuais irão dar, porque ninguém quer ser diferente. Foi complicado e vivi isso para dentro. O mais ridículo é que não sabia que ia ter uns pais superabertos a tudo.

Diz que viveu tudo para dentro...
Só falei com alguém quando tive a minha primeira relação de um ano com uma mulher. Foi às escondidas. E como qualquer relação enclausurada, aquilo acabou. Estava tão mal que emagreci imenso. Até que falei com uma amiga e com o meu diretor espiritual, que é o padre Ricardo, e a partir daí comecei a pôr para fora o que sentia. Mas o maior preconceito estava dentro de mim. Continuei durante muito tempo a achar que um dia ia aparecer um homem e que me ia apaixonar perdidamente. E, por isso, tinha de estar quieta no meu sítio. Até que decidi ser feliz.

Foi fácil contar aos seus pais?
Foi difícil. Porque, independentemente da forma como constróis a conversa na tua cabeça, achei sempre que os ia desiludir. Mas foi uma surpresa quando contei aos meus pais. O meu pai, que é superconservador, virou-se para mim e disse: "Sei o que é um problema: o cancro, a morte... Isso não é um problema!" E o meu pai dizer isso, o senhor Bíblia, deu-me uma lição. A minha mãe só tinha uma questão: porque é que eu não lhe tinha contado mais cedo, porque me podia ter ajudado.

Nas redes sociais, pedem-lhe conselhos?
Muitos. E, para mim, é um tema sensível. Quando são adultos, tento responder a todas as questões. Quando são crianças, tento responder, mas através das minhas entrevistas, como esta. Sinto que não tenho direito de me meter numa família que não conheço. Mas é um tema difícil para mim... Estou muito validada pela exposição, sou atriz, estou num mundo liberal, mas nem toda a gente vive assim.
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