Juan Carlos em exílio de solidão e vergonha

Rei emérito pediu ao filho, Felipe VI, para deixar o país após escândalo de corrupção. Para trás deixa uma família caída em desgraça.
Juan Carlos e Sofia de Espanha
Juan Carlos
Juan Carlos vai ser investigado pelo Supremo Tribunal
Juan Carlos e Sofia
Juan Carlos e Sofia de Espanha
Juan Carlos
Juan Carlos vai ser investigado pelo Supremo Tribunal
Juan Carlos e Sofia
08 ago 2020 • 17:49
Sónia Dias
O exílio de Juan Carlos surge como o derradeiro golpe numa monarquia caída em desgraça.

Quatro meses depois de Felipe VI ter anunciado que ia retirar a pensão ao rei emérito e renunciar à sua parte da herança, numa tentativa de se distanciar dos escândalos de corrupção e fraude em que o pai está envolvido, Juan Carlos decide abandonar Espanha, país que reinou durante 40 anos, e exilar-se.

"O meu legado, e a minha dignidade enquanto pessoa, exigem que me exile", escreveu na carta dirigida ao filho e entretanto divulgada pela casa real.

O afastamento de Juan Carlos surge na sequência da "repercussão pública" que as recentes notícias sobre as suas contas bancárias na Suíça podem ter no reinado do filho (que lhe sucedeu por abdicação em 2014).

Vida de escândalos
A rainha emérita não acompanhará o antigo monarca no exílio.

Sofia, que se encontra de férias em Palma de Maiorca, continuará a viver em Madrid com a irmã, Irene da Grécia, e deverá manter a sua agenda institucional.

Casados desde 1962, há muito que Juan Carlos e Sofia fazem vidas separadas, embora residam no mesmo palácio e apareçam juntos em atos oficiais.

Os casos extraconjugais do rei emérito destruíram a sua relação com Sofia, mas esta optou por manter um casamento de fachada para proteger a família.

A amante mais conhecida de Juan Carlos é Corinna Larsen, que foi casada com o príncipe alemão Casimir.

Corinna tinha 39 anos quando conheceu o rei de Espanha, então com 66, de quem se tornou assistente. Hoje também está a ser investigada por ter recebido quase 65 milhões de euros do antigo monarca.

Corinna diz que se tratou de uma transferência por "gratidão e amor", mas as autoridades espanholas e suíças acreditam ser parte da comissão que Juan Carlos terá recebido dos sauditas por causa do negócio para a construção de uma linha de comboio de alta velocidade entre Meca e Medina, a cargo de um consórcio espanhol.

Vetado pela própria família
Os inúmeros escândalos não afetaram apenas Juan Carlos, mas também a própria família, que aos poucos tem tentado distanciar-se do antigo monarca.

E Letizia, que casou em 2004 com Filipe, foi uma das principais instigadoras desse afastamento.

A relação entre os dois nunca foi boa, com a ex-jornalista a fazer frente ao sogro em diversas ocasiões.

A imprensa espanhola diz mesmo que foi ela quem convenceu o marido a ‘virar as costas’ ao progenitor quando este foi acusado de corrupção, uma vez que a sua única preocupação é a sucessão ao trono de Leonor, a filha mais velha.

Com a reputação irremediavelmente manchada e sem o apoio da família, Juan Carlos não viu outra alternativa senão o exílio. E esta foi a carta que escreveu ao filho para anunciar a sua decisão: "Majestade, querido Filipe, com a mesma avidez de serviço a Espanha que inspirou o meu reinado e pela repercussão pública que estão a ter certos acontecimentos passados da minha vida privada, desejo manifestar a minha absoluta disponibilidade para contribuir para o exercício das tuas funções na tranquilidade e sossego que esta tua grande responsabilidade requer. O meu legado, e minha dignidade enquanto pessoa, exigem que me exile. Há um ano expressei-te a minha vontade e o desejo de deixar de desempenhar as atividades institucionais. Agora, guiado pela convicção de prestar um melhor serviço aos espanhóis, as suas instituições e a ti como rei, comunico-te a minha imediata decisão de sair de Espanha. É uma decisão que tomo com profundo lamento mas com grande serenidade. Fui rei de Espanha durante 40 anos e durante todos eles sempre quis o melhor para Espanha e para a Coroa. Com a minha lealdade de sempre. Com o carinho e afeto de sempre, o teu pai."

Infância passada no Estoril
Juan Carlos nasceu a 5 de janeiro de 1938 em Roma.

O rei emérito passou grande parte da juventude no Estoril, na Vila Giralda, para onde se mudou aos oito anos.

Foi aqui que o irmão mais novo, Alfonso, foi vítima do disparo acidental de uma arma de fogo e perdeu a vida aos 14 anos.
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