Mila Ferreira: “Um livro sobre a minha vida ia vender bastante”

Cantora lança novo álbum
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14 jul 2012 • 10:01

A cantora acaba de lançar novo álbum, ‘Sopro da Alma’, um disco em que assume a escrita como necessidade absoluta. A completar meio século de vida, Mila abre o livro da sua história, dos afectos aos desgostos

- Diz que "nascemos destinados a entregar-nos". Acredita que foi a música que a escolheu a si?

- Acredito que não nascemos com determinados dons ou aptidões por acaso. A partir do momento em que descobrimos que temos uma missão a cumprir, sem querer ser mais importante do que os outros, acho que encaramos a vida com maior responsabilidade.

- E essa sua descoberta foi recente?

- Aconteceu depois de uma paragem que fiz na advocacia. Eu andava a trabalhar 14 horas por dia, não conseguia ter tempo para mais nada, mas quis o destino que eu voltasse a encontrar esse tempo, a entrar dentro de mim e a perceber o que é que queria fazer.

- E o que é que essa paragem a ajudou a perceber?

- Ajudou-me a perceber que eu não sou só uma voz. Que também sou um veículo de mais qualquer coisa.

- O que é que acha que tem para oferecer aos outros através da música?

- Acho que tenho a minha sensibilidade, a minha voz e a minha capacidade de escrita. É muito bom descobrirmos em nós próprios aquilo que pode tocar aos outros e aquilo que poderá fazer falta às pessoas. A minha grande preocupação é sempre encontrar algo para dizer aos outros, por forma a libertá-los ou até, porque não, os fazer chorar, porque às vezes é importante termos uma canção para nos lavar a alma.

- O seu novo disco ‘Sopro Da Alma’ fala de quê?

- Este disco tem uma ideia que funciona como fio condutor: luz, força e esperança. Neste novo álbum levo as pessoas para sítios bonitos. Falo da perda e da dor, falo do amor que anda à deriva, das pessoas que vivem isoladas…

- A Mila escreve muito sobre si?

- Sobre mim e sobre os outros. Há um tema chamado ‘Sopra (em mim)’ para o qual me inspirei muito no meu irmão que está a trabalhar em Angola e que um dia me disse: "Mila, isto é só pó". Então imaginei-o no monte, cheio de pó, a trabalhar isolado, mas percorrido por uma brisa de esperança.

- É fácil passar para o papel aquilo que sente?

- Eu gosto muito de escrever. Comecei a escrever muito aos 11/12 anos. Tinha excelentes relações com pessoas da minha terra [Caldas da Rainha], que escreviam muito bem e sempre estive muito perto da escrita. Só que a partir do momento em que me formei e que passei por um episódio muito triste da minha vida, sobre o qual não interessa falar, passei a ter medo de entrar em mim. Por isso decidi: "Vou viver um bocadinho e depois escrevo".

- Isso quer dizer que escrever para si é um processo doloroso?

- Às vezes, sim. Há uma canção neste disco chamada ‘És Metade de Mim’, também escrita por mim, que já pôs muitos homens a chorar. É uma canção muito verdadeira, sem rodeios. E isso acaba por tocar as pessoas.

- E o que é feito desses textos todos que escreveu na sua infância?

- Infelizmente, o meu pai deitou muitas coisas fora numa altura em que fez obras lá em casa.

- Já pensou em escrever mais do que canções? Um livro, por exemplo?

- Já. Mas acho que seria sempre alguma coisa à volta da prosa poética. Escrever uma história é complicado. Para isso teria de escrever a história da minha vida, e isso eu não posso.

- Porquê?

- Porque envolve muitas pessoas. Um livro sobre a minha vida venderia bastante, mas ia envolver terceiros. Tenho muita coisa para partilhar, coisas que as pessoas nem imaginam, mas também tenho muito respeito pelos outros. Se calhar vou morrer com esses segredos, mas não interessa. Tento passá-los através de outras mensagens.

- Voltando ao disco, ‘És Metade de Mim’ é dedicado ao seu marido?

- Não. Ele sabe do que é que estou a falar, tem uma mensagem comum, mas não é dedicado a ele.

- Mas o seu marido é o seu grande pilar!

- Sim, ele, a minha mãe e a minha ‘filhota’ pequenina, que é a minha cadelinha. E depois tenho ainda o desporto, que é fundamental na minha vida. Sirvo-me muito dele para lavar a alma.

- Que importância tem o seu marido no seu trabalho?

- Ele puxa muito por mim. Como é publicitário, acaba por ser muito crítico em relação à minha escrita. Quando eu escrevo uma canção, ele diz-me logo para tirar tudo o que seja a palavra amor (risos).

- Porquê?

- Porque não gosta da palavra amor. Diz que tem de ser sempre disfarçada.

- Não é habitual na área dos espectáculos ver uma relação tão duradoura quanto a sua [27 anos]. Qual é o segredo?

- É partilharmos tudo. No momento em que eu estou a dar esta entrevista ele está a melhorar o meu site, por exemplo. Consegue-se com muito amor, dedicação e lealdade. E, depois, nós temos muitas afinidades, afinal de contas eu conheci-o como músico.

- Porque é que nunca casaram?

- Porque isso nunca nos preocupou. Um dia, ao fim de cinco anos de namoro, ele ofereceu-me um anel, pediu-me em casamento e a partir desse dia foi como se tivéssemos ficado casados (risos). Sempre procurámos viver uma vida com uma identidade própria, sem modelos. Nem nunca procurámos aquele pacote do casar e ter filhos.

- Mas nunca sentiram a vontade de ter filhos?

- Talvez tenha havido algumas vezes, mas quando fui a ver já tinha quarentas e bastantes (risos). E agora já estou nos 50. Agora tenho é idade para estar sossegadinha na minha casa com os meus sobrinhos. Afinal, já tenho sobrinhos-netos.

- Estes 50 anos também ajudam a apurar a escrita de que falava?

- Sim, mas muito do que eu escrevo ainda são sobre coisas do passado. Ainda não estou a fazê-lo sobre o presente. Escrevo mais sobre as coisas que marcaram ao longo da vida.

- Como por exemplo?

- A minha música tem, por exemplo, uma grande ligação à natureza, porque eu ia sempre cantar para os jardins. Era onde eu sabia que podia cantar e puxar pela voz sem chatear ninguém.

- Que idade tinha?

- Tinha os meus 14/15 anos. Às vezes desaparecia, ia para o jardim e lá ficava a cantar, mesmo à chuva. Aliás, só soube o que era um chapéu-de-chuva quando vim para Lisboa. Eu adorava andar à chuva. A natureza sempre me serviu de aconchego. Por isso, não foi fácil deixar a natureza e aprender a viver no cimento.

- Que memórias tem de infância?

- Tenho umas memórias bonitas e outras menos, mas todas elas fizeram de mim aquilo que sou hoje. Tive uma infância difícil porque não éramos ricos. A minha mãe era uma mulher abastada, mas casou com um homem pobre e isso provocou uma cisão familiar. Mas eu e os meus irmãos fomos criados por um casal que se amava muito e que nos educou segundo princípios muito bonitos. A minha mãe, por exemplo, é a pessoa mais bondosa que eu conheci na vida.

- Mas diz que teve uma infância pobre?

- Sim. Tivemos muitas dificuldades económicas. Se eu fosse filha de pais mais abastados, se calhar tinham tido possibilidade de me mandar para Lisboa estudar. Terei que vir noutra vida (risos).

- Eles sempre viram com bons olhos a sua opção pela vida artística?

- Sim, eles tinham um orgulho enorme. O meu pai também tinha uma voz maravilhosa. Os meus pais sempre me disseram: "Descobre uma coisa de que gostes". Nunca me disseram, nem a mim, nem aos meus irmãos, que tinha de ser isto ou aquilo. A única coisa que me diziam é que se eu chumbasse um ano na escola, tinha de sair e ir trabalhar.

- Como é que está a lidar com os 50 anos?

- Muito bem. Há uma coisa que a mim ninguém me tira, que é a experiência e, porque não, o charme. Há mulheres de 25 anos que são muito bonitas, mas apenas uma embalagem. Eu não voltava para trás. Deu muito trabalho chegar até aqui.

- Arrepende-se de algo que tenha ou não tenha feito na vida?

- Tenho alguma pena de não ter sido bailarina. Descobri isso há dois anos. Fiz muitos anos de ballet quando era mais nova e era a paixão da minha vida. Mas não aconteceu naquela altura. Quando vim para Lisboa, retomei, mas sempre como amadora. Hoje, consola-me o facto de, nas aulas que dou de fitness, ter uma componente de bailado. Acho que consigo passar para as minhas alunas o amor que tenho pela dança.

- O que é que a dança tem de especial?

- Eu gosto de tudo o que faço e tenho uma admiração enorme por todas as formas de arte que nos permitem voar com o espírito. Mas a dança permite-nos voar, não só com o espírito mas também com o corpo. É uma sensação indescritível. Há 14 anos fui assistir a um bailado de uma amiga minha e antes do espectáculo começar disse-lhe: "Quando estiveres a voar, por favor lembra-te de mim e leva-me contigo".

- Como é que está a advocacia neste momento?

- Tenho uns cliente fixos e acho que é por eles que ainda me mantenho na advocacia.

- Qual é a área em que trabalha?

- Trabalho em todas, mas sobretudo na área das cobranças, para a qual acho que tenho muita sensibilidade. Consigo sempre chegar a bons acordos.

INTIMIDADES

- Quem é que gostaria de convidar para um jantar a dois?

- O meu marido e a minha cadela (por baixo da mesa).

- Quem é para si o homem mais sexy?

- O meu marido, embora, às vezes, tenha de o obrigar a fazer uns abdominais (risos).

- O que é que não suporta no sexo oposto?

- Odeio ‘marialvas’, os homens que coleccionam mulheres e não têm respeito nenhum por elas.

- Qual é o seu maior vício?

- É o desporto. É algo de que preciso mesmo.

- Qual foi o último livro que leu?

- ‘Uma Burqa por Amor’, de Reys Monforte. Gosto muito de livros sobre islamismo e a condição da mulher no mundo árabe.

- O filme da sua vida?

- ‘O Monte dos Vendavais’ e ‘Tudo o Vento Levou’.

- A cidade preferida?

- Paris é uma cidade de que gosto muito.

- Complete. A minha vida é...

- a de uma mulher simples e lutadora.

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