"Os meus pais não viam a música como uma saída para mim"

O músico apresenta dia 16 no Cine Incrível ‘À Sombra do Cristo Rei’, um tributo a bandas de almada
Foto: Mariline Alves
14 set 2016 • 15:15
Miguel Azevedo

Porquê um tributo à Margem Sul?
Este era um projeto que eu tinha há já algum tempo na cabeça e que tem muito a ver com alguma nostalgia em relação aos concertos da Incrível Almadense e daqueles tempos fervilhantes do início dos anos 80. Naquela altura eu vivia em Almada e o que existia era um ambiente completamente revolucionário em termos de música. O boom do rock português bateu ali forte.

Como é que era essa ambiente?
Acho que havia uma banda em cada garagem (risos). Havia bandas do Seixal, da Costa, do Laranjeiro, de Corroios, de todo o lado. No ano passado, e por causa do Festival Sol da Caparica, essa nostalgia voltou a bater. Entretanto, o meu pai fez anos e eu fui até ao rio com ele. Estivemos a ver o Ginjal. Os meus dois filhos estavam connosco e aproveitei para lhes mostrar aquela Almada que eu conheci. A reboque disto eu já tinha tido uma conversa com o Carlão sobre a hipótese de fazermos um espetáculo de tributo às bandas de Almada. Tudo junto e com a ajuda do Nuno Espírito Santo [ex-Braindead], que também cresceu em Almada, acabei por juntar uma banda.

Sentiu-se em dívida com Almada?
Não é dívida, é gratidão. Eu fui um sortudo por ter vivido naquela terra. Assisti a muita coisa. Lembro-me ainda, por exemplo, da fase inicial dos UHF e de ter percebido que havia alguma coisa a acontecer. Havia o Roquivários, os Iodo e o grande salto deu-se com o ‘Patchouly’ do Grupo de Baile. E o engraçado é que aquilo não morreu com aquela geração ou com o boom do rock português. Aquilo continuou.

Como é que foi essa vivência do Tim em Almada?
Eu vivi em Almada dos 5 aos 27 anos e fiz lá toda a minha escola. Enquanto andava na faculdade e já com os Xutos vivi muito tempo em Almada, na Afonso Henriques. Mas foi um período difícil para mim.

Difícil porquê?
Porque eu tocava desde os 15 anos, mas não tinha perspetiva nenhuma de ser músico. Era músico de jardim (risos). A minha cabeça estava em estudar e o que eu fazia era compensar a vida académica com a música. Descansava agarrado à viola. Tinha o meu grupo de amigos, quase todos almadenses, vivíamos entre a avenida, o café central, o jardim do Castelo e o rio mas não tínhamos muito para nos entretermos... nem dinheiro, embora não fôssemos nenhuns desfavorecidos. Tive de sair para fora de Almada, para a Moita, para começar a tocar numa banda onde também tocava a Midus. Foi em Almada que vivi o 25 de Abril e toda a movimentação da Lisnave. Almada era uma cidade muito proletária. Era a província mais perto de Lisboa com uma vivência de cidade fechada.

Naquela altura a Margem Sul era quase vista como um gueto!
Às vezes sim, mas não para quem lá estava. O que acontecia é que tínhamos os nossos bandos, a nossa forma de estar e o nosso estilo de vida. Acho que até nos sentíamos ali muito protegidos. Depois veio o 25 de Abril e foi quando se notou a miscigenação de culturas que produziu resultados muito engraçados no que diz respeito a bandas musicais.

Quando é que percebeu que tinha de seguir pela música? Eu acho que foi nas minhas incursões à Moita. Até ali eu achava que nada ia acontecer, porque não via no meu grupo de amigos nada que indiciasse música. Hoje uns são médicos, outros engenheiros...

E como é que tudo começa?
Foi quando conheci o Zé Leonel [primeiro vocalista do Xutos]. De repente, quando dei por mim, já estava em Lisboa a ensaiar com eles.

Então os Xutos são o seu primeiro projeto a sério?
Sim, antes disso só tocava por piada com amigos.

Quando os seus pais se aperceberam da vontade pela música, isso foi algo que lhes agradou?
Eu acho que eles nunca viram isto da música como uma saída profissional para mim, até porque não havia essa figura do artista, nem do músico. Eram carreiras secundarizadas. Ter um filho médico é que era (risos). Por isso os primeiros seis anos dos Xutos & Pontapés foram passados entre a faculdade e os ensaios.

E sempre em Almada?
Sim, eu só saí de Almada com o ‘Circo de Feras’.

E foi lá que começaram a ensaiar?
Não, curiosamente ensaiávamos na Linha, na zona de Pedrouços e Carcavelos, na Academia Dramática Familiar, que foi uma instituição que sempre nos acolheu muito bem e que nos cedia as instalações. Curiosamente, já depois de ter mudado para Lisboa é que encontrei um local para ensaiar em Almada (risos).

Como é que era esse eixo Almada/Cascais?
Era feito todos os dias de carro. Comecei num Mini e acabei num Ibiza. Dava boleia ao Zé Pedro, que não tinha carta na altura, encontrávamo- -nos em Alcântara e íamos para Carcavelos. Depois o meu carro começou a ficar muito velhote e começámos a ir no do Cabeleira quando ele entrou para a banda.

Já que estamos a falar de Xutos, o que é que eles acham deste novo projeto fora da banda?
Eles já ouviram as canções e gostaram. Nós já tínhamos há algum tempo um projeto pensado pelo Kalu para fazer um disco de versões de músicas do rock português, mas isso era uma coisa mais abrangente. Eu acho que eles às vezes podem é não perceber muito bem como é que eu arranjo tempo para fazer estas coisas (risos).

Estes projetos paralelos aos Xutos são encarados como escapatórias?
Epá! Eu posso ter um problema de hiperatividade (risos). O que acontece é que muitas vezes o andamento dos Xutos, ao final destes anos todos, já é diferente do meu e eu sinto que de facto tenho espaço para fazer outras coisas, nomeadamente conviver musicalmente com outras pessoas, que no fundo é o que se passa agora. Não há aqui nenhuma tentativa de demarcação de território ou de imagem. Acontece o mesmo com os projetos do Kalu ou do Zé Pedro! Exatamente, e eu gosto muito de descobrir outras coisas que não conheço no trabalho deles com outras pessoas. Ainda recentemente o Zé Pedro gravou os Ladrões do Tempo e o Kalu gravou o seu disco. O próprio Cabeleira também anda há algum tempo com um trabalho de música de dança. Gosto de ver a diversidade deles.

E isto deve acabar por enriquecer os próprios Xutos!
Claro que sim. Até porque esta coisa de estarmos sempre a olhar para o nosso próprio umbigo e só para os amigos à nossa volta chega a um ponto em que parece que acabou tudo. Filhos vão estar em palco Neste espetáculo vai tocar com os seus dois filhos, o Sebastião e o Vicente.

É a primeira vez que toca com os dois?
Sim e as coisas estão a correr muito bem. Nós já temos uma banda de instrumentais e música psicadélica para nos entretermos, mas um projeto de rock que nos juntasse ainda não tinha surgido. Eu queria muito vê-los em força (risos). Foi muito engraçado porque eles ainda foram mais longe do que eu esperava.

Eles já conheciam as músicas?
A maior parte delas não, mas deram-se muito bem com elas. Mesmo o ‘Patchouly’ ou os ‘Cavalos de Corrida’ não estão no imaginário de miúdos com vinte anos. Para o Sebastião e para o Vicente é como se fossem músicas novas.

O que vamos ouvir então no espetáculo? Vamos ouvir recriações. São versões praticamente tiradas dos originais que vão dos UHF aos Da Weasel, passando por Braindead, Roquivários ou Iodo, entre outras. E há duas músicas dos Xutos, a primeira e a última que fiz em Almada, ‘Quero Mais’ e ‘Quem É Quem’.

Ou seja, vai lembrar as bandas que o influenciaram, mas também homenagear bandas que influenciou enquanto músico?
É possível, mas no fundo o que eu pretendo homenagear e chamar a atenção é para a perspetiva de grupo e de conjunto que Almada sempre teve. Em Lisboa uma banda formava-se e virava quase uma banda nacional. Nós em Almada ainda tínhamos de passar por Lisboa primeiro (risos). E por isso ainda havia mais esse espírito de grupo.

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