"Tenho excelentes memórias dos anos 80, mas não queria ser novo outra vez"

Lloyd Cole toca em Aveiro (dia 14), Lisboa (CCB dia 15), Guarda (16) e Porto (Casa da Música dia 17)
14 set 2016 • 15:32
Miguel Azevedo

Está de regresso a Portugal com um espetáculo novo. Em concreto que espetáculo é este?
É um espetáculo essencialmente acústico que teve o seu pontapé de saída no dia 26 de Agosto na Irlanda. É um concerto que conta sobretudo com canções do período da minha carreira que vai de 1983 a 1996 e que vem no seguimento de uma caixa retrospectiva que foi lançada em 2015. A fazer um espetáculo assim este era o momento certo para o fazer.

Porquê?
Porque passei muito tempo a trabalhar na recolha de temas antigos e tinha que aproveitar. Já que não tinha nenhum disco novo era agora ou nunca (risos). E vem aí mais outra caixa.

Como é que foi para si olhar para o passado. Sentiu de certa forma alguma nostalgia ao fazê-lo?
Sim, eu acho que a nostalgia é um sentimento sempre inevitável nestes casos, afinal são trinta anos e oito discos, é muito material. O difícil foi escolher o que deixar de fora.

Mas ao final deste tempo todo, conseguiu descobrir alguma coisa nova nessas canções de sempre? De alguma forma ainda conseguiu surpreender-se com elas?
É engraçado porque que quando pegamos em algumas canções que já não tocamos há muito tempo parece que de repente elas são totalmente novas para nós. Mas sim, claro que me surpreendo com alguma delas, afinal de contas quando as escrevi era quase um miúdo. Hoje sou uma pessoa totalmente diferente. Às vezes até tenho dificuldade em encontrar a voz certa para as interpretar porque também a minha voz mudou.

E como é que faz?
Tento encontrar o tom certo, afinal de contas eu sou um velho (risos).

Há alguma canção do seu repertório mais antigo que já esteja cansado de tocar ao vivo?
Acho que não. Eu sinto que há um lote de umas 12 canções que se eu não tocar pelo menos oito delas, há pessoas que vão sair completamente desiludidas e infelizes dos meus concertos. O que eu tenho feito ao longo da minha carreira é uma gestão dessas canções. Se estou mais cansado de tocar esta ou aquela deixou-a repousar  por um ou dois anos (risos). E depois quando volto a elas encontro sempre formas novas de as tocar e interpretar. Eu acho que ainda estou a a aprender a tocar o ‘Are You Ready to be Heartbroken?’ (risos).

Como assim?
A música original dessa canção foi composta pelo Nigel e Neil Clark e por isso tenho a sensação que estou sempre à procura da melhor forma de a tocar. Acho sempre que é mais complicada do que parece e que eu a tornei demasiado simples.

Neste momento consegue perceber quem é o público que vai aos seus concertos? Há fãs novos ou são sobretudo pessoas que já o ouviam nos anos 80 e 90?
Há pouco tempo dei um concerto em Londres com uns amigos com quem ando a tocar há uns tempos e vi muita gente nova. É verdade que era um espetáculo menos acústico do que este que vou apresesentar agora em Portugal, mas vi muitos fãs novos. Claro que não estou a falar de miúdos de 16 anos, mas de malta na casa dos 20 e 30.

E isso surpreende-o?
Sim, claro que sim, afinal de contas eu já tenho 55 anos. Nós músicos queremos sempre que a nossa música nunca seja excessivamente datada. Eu odeio isso. Honestamente, acho que é impossível fazer música que seja realmente intemporal mas acho que todos tentamos que isso aconteça.

Que relação é que o seu filho tem por exemplo com a sua música?
Ele já é crescidinho para ter a sua própria opinião sobre as coisas. Acho que gosta da minha música mas acho que ainda se sente um pouco embaraçado e envergonhado por ser meu filho (risos).

Agora que está numa fase retrospectiva da sua carreira e olhando para trás, sente saudades dos anos 80, quando lançou os três discos com os Commotions?
Não, sinceramente não sinto. Aquele tempo eu vivi-o como todos os jovens da minha idade. Hoje já não os podia gozar da mesma maneira porque sou bastante mais velho. Tenho excelentes memórias dos anos 80, mas não queria ser novo outra vez. O mais chato nisto de ser velho é só porque o nosso corpo já não responde da mesma maneira. Neste momento tenho uma dor num joelho, num cotovelo e nas costas que não me largam (risos). Todos os dias de manhã tenho que fazer exercícios específicos depois de sair da cama. Só nesse sentido é que tenho saudades de ser novo. No que toca à forma de cantar e fazer música estou bastante contente com a minha velhice (risos).

Quando olha para os anos 80 e para o início de tudo com os Commotions qual é a primeira memória ou história que lhe vem à cabeça?
Epá! Há tantas histórias, mas acho que nunca vou esquecer a primeira vez que chegámos ao primeiro lugar do top no Reino Unido. Acho que foi o dia mais excitante da minha vida. Ir à televisão ou ser capa do New Musical Express é algo que nunca esquecerei, até porque eu era uma pessoa profundamente feliz e realizada com aquilo que fazia. O primeiro ano dos Commotions em 1984 foi de loucos: nós estávamos mesmo a conseguir aquilo tudo.

Foi por essa altura que vieram a Portugal. Recorda-se do seu primeiro concerto por cá?
É curioso que não me recordo de todos os concertos dessa altura mas lembro-me perfeitamente do de Portugal. Foi em Cascais em 1985 em que tocámos com os Prapaganda. Lembro-me especialmente dessa noite porque o pavilhão onde íamos tocar estava lotado e do lado de fora estavam outras tantas pessoas a tentar entrar. Foi uma loucura. Acho que devemos ter levado meia hora para fazer um quilómetro e conseguir entrar no pavilhão porque havia gente por todo o lado. Naquela dia a rádio pública só tocou canções nossas. O mais curioso é que à data só tínhamos 12 ou 13 canções (risos).

Também tem a ideia que naquela altura era mais difícil começar a fazer música, juntar uma banda, comprar instrumentos ou alugar um estúdio?
Claro que sim. Gravar um disco, por exemplo, era uma fortuna e muitos nem sequer pensavam em fazê-lo. Havia sempre aquela ideia de que primeiro era preciso arranjar uma editora, algo que não é preciso hoje em dia para gravar um álbum. O meu filho por exemplo, faz muitos trabalhos de gravação em casa. Já não é preciso ter um estúdio para se gravar.

Ainda mantém contacto com os Commotions?
Claro que sim, continuamos todos amigos e todos muito ocupados.

O que é que eles fazem neste momento?
O Blair Cowen (teclados) é o único dos Commotions que nunca deixou Glasgow. Ainda há umas semanas estive a tocar com ele, embora a sua profissão hoje nada tenha a ver com música. Ele trabalha para a British Telecom. O Stephen, o baterista, vive em Londres e é dono de um restaurante. O Neil está em Toronto, tem uma banda lá, mas também passou os últimos vinte anos a ser pai e a cuidar da família. O Lawrence, o baixista, tornou-se escritor e jornalista e durante algum tempo escreveu sobre golfe no The Guardian.

Já que fala em golfe, é verdade que costuma vir a Portugal para jogar?
Não é bem isso. Eu jogo golfe em Portugal quando vou em digressão. Nunca viagei de propósito para Portugal só para jogar. Ainda agora na digressão que vou começar em Portugal já tenho uma partida marcada para o Estela Golf Club, a 25 quilómetros a norte do Porto. Pessoalmente eu não gosto muito do golfe no Algarve porque é muito virado para o turismo.

E o que é que gosta mais em Portugal?
Acho que vocês são um povo muito orgulhoso. Aliás, tenho que vos dar os parabéns por terem ganho o campeonato da Europa de Futebol. Foi talvez o pior campeonato da Europa de todos os tempos (risos). Nunca achei possível que Portugal pudesse ganhar sobretudo depois de ter jogado tão mal na fase de grupos. Mas a verdade é que vocês foram a equipa que jogou menos mal (risos). À parte disso come-se muito bem em Portugal. Eu sei sempre o que devo comer. Nunca comi mal no vosso país. E sempre bebi ainda melhor. Os meus restaurante preferidos são em Lisboa. Adoro o Chiado e há lá sítios fabulosos. Um dos meus restaurantes de carne preferidos no mundo é o Brasserie de L'Entrecôt.

E música portuguesa o que é que conhece?
Conheço bem fado e digo já que gosto muito mais de ouvi-lo quando é cantado por uma mulher. Não sei explicar porquê, mas gosto muito mais, talvez porque me pareça que há mais emoção. Sempre que vou a Lisboa faço questão de ir até uma casa de fados. Há um ambiente quase grotesco muito curioso.

No ano passado editou um disco de música eletrónica. É por este caminho que vai continuar no futuro?
Sim, acho que sim, de qualquer forma o meu próximo disco será definitivamente um disco de canções. Estou a trabalhar nelas neste momento e quero lançar um disco com temas muito fortes.   

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