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UHF: “Ninguém está a falar verdade sobre o que se passa neste país”
Grupo lança disco-desabafo de um homem comum chamado António Manuel Ribeiro
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24/08/2013 10H32
O novo trabalho tem dado muito que falar nas redes sociais
Foto: Sérgio Lemos

Aos 35 anos, o grupo lança ‘A Minha Geração’, um disco-desabafo de um homem comum chamado António Manuel Ribeiro.

- Ao final de 35 anos de carreira e mais de 60 discos, é fácil encontrar motivação para continuar a fazer música?

- É fácil se não exigirmos demais de nós. Eu nem sequer vivo em ansiedade. As canções acontecem naturalmente. Às vezes fico semanas e meses sem escrever nada e depois num dia posso escrever quatro canções. É um processo todo muito biológico.

- Não pratica, portanto, o isolamento para compor ou para fazer um disco...

- Não. Já houve alturas em que tive que fazer isso por causa das editoras, mas neste momento somos livre de fazermos o que queremos e quando queremos. Não tenho quaisquer horários rígidos para cumprir.

- ‘A Minha Geração’ é um disco de revolta de um músico revoltado?

- Não, eu diria que é um disco de um cidadão inquieto, de um compositor e de um escritor de canções atento ao País e ao momento que vivemos. É um disco de alguém que está muito cansado por todas as promessas que têm sido feitas ao longo dos tempos e por este declínio constante. Portugal parece um barco a fundar que nunca mais se afunda. Vamos flutuando a meter água. É este estado de existência contra o qual este disco muitas vezes ruma.

- O que é que mais o incomoda?

- A classe política, que é muito medíocre, que tem pouco nível, pouca história e muito pouco currículo. Às vezes até sabemos que academicamente é tudo muito falso. Estamos à beira de uma tragédia muito complexa. Ninguém está a falar verdade sobre aquilo que se passa no País.

- É por isso que este disco fala da sua geração? Do que é que sente saudades?

- Eu não sinto saudades. Cada tempo tem o seu tempo, e eu vim por aí fora como os outros. Mas, quando falo com a minha geração, o que eu sinto é que as pessoas acreditaram, como eu. Só que eu visito o resto do País e o resto do Mundo em trabalho e ouço as pessoas. Eu, quando vou a qualquer ponto do País, vou sem passerelle vermelha como os políticos. E por isso sinto esse respirar.

- Será que é por isso que o tema ‘Vernáculo’, que é praticamente um desabafo antipolítico, se tornou quase viral nas redes sociais (20 mil visualizações em quase um mês)?

- Eu não tinha noção disso. Essa é uma canção no meio do disco que não teve nenhuma divulgação especial e que é feita sobre um poema que eu editei em livro em 2006. Eu acho que às vezes as pessoas precisam de ser abanadas. Mas nós não programámos nada. Aquilo não é mais do que a confissão de um homem comum. No fundo, é aquilo que se diz na rua e que os políticos não ouvem.

- E o que acha que eles pensarão quando ouvirem o líder de uma das maiores bandas do rock português chamá-los "paneleiros" e "filhos da puta"?

- Eu não quero isolar nenhum desses adjetivos porque há um contexto de linguagem. Mas o que eu acho, até porque conheço alguns dos políticos que estão no poder e outros que estão na oposição, é que a esta altura devem estar a dizer: "Mas que grande sacana" [risos].

- Os UHF têm tido várias formações ao longo dos anos. Alguns dos músicos de hoje ainda nem eram nascidos quando o grupo começou. Faz questão de ir renovando a banda?

- Não. Uma das coisas mais chatas para uma banda é mudar um músico, só que às vezes isso tem que acontecer. Um grupo com a longevidade dos UHF já é uma espécie de família em que as pessoas têm que se dar bem, porque vivem juntas no carro, no hotel, no palco, no camarim, no restaurante... Por isso, sempre que mudei de músicos, fui obrigado a fazê-lo. Mas é preferível viver bem divorciado do que mal casado [risos].

- Isso nunca o fez esmorecer a ponto de pensar em colocar um ponto final nos UHF?

- Sim, o grupo teve algumas crises internas que me levaram muito abaixo. Pensei no fim várias vezes, mas por acaso há já muito tempo que não me ocorre [risos].

Fotogaleria de António Manuel Ribeiro
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OPINIÃO
  • Não há nada para celebrar!
    De efemérides Pedro Abrunhosa não quer nem ouvir falar.
    Vida
    A melancolia está presente como uma nuvem que percorre o disco.
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