Amigos do coração

Os grandes amigos das mulheres são homens que as conhecem bem, que as estimam e respeitam, que as ouvem e as protegem, como irmãos. E as mulheres que têm irmãos, têm muita sorte.
23 mar 2016 • 09:56
Margarida Rebelo Pinto

Tenho para mim que a amizade entre homens e mulheres não só é possível, como faz bem à cabeça e ao coração. Há quem a considere uma falácia, partindo do princípio que os homens não conseguem um estado neutro junto do sexo oposto, mas tal visão é injusta e redutora. Os grandes amigos das mulheres são homens que as conhecem bem, que as estimam e respeitam, que as ouvem e as protegem, como irmãos. E as mulheres que têm irmãos, têm muita sorte.

O meu primeiro grande amigo foi o meu irmão. Leva-me três anos à frente na vida e sempre teve uma paciência infinita para me aturar. Quando era criança, desarrumava-lhe os carrinhos e surripiava-lhe berlindes. Quando entrei para a primária, quis aprender a jogar futebol e ele tentou ensinar-me. Anos mais tarde, aconteceu o mesmo com o ténis; a sua paciência era inversamente proporcional ao meu jeito. O meu irmão levava--me à porta do liceu de manhã, fazia-me recados e acompanhava-me a festas quando era demasiado nova para os meus pais me deixarem ir sozinha. Ao longo de toda a minha vida esteve e está sempre lá para me ouvir, me fazer companhia, me dar conselhos, me pôr a rir quando calha e a pensar sempre que preciso. Foi ele que me disse que ter ética é estar à altura das circunstâncias. Essas e outras frases serviram-me de guia para enfrentar a vida e as mais variadas partidas que esta me foi pregando.

A amizade que tenho por ele é infinita, embora nem sempre lhe diga o quanto o estimo e admiro. O mesmo se estende para outros amigos de toda a vida e para a vida. Alguns vivem em outras cidades ou do outro lado do mar, mas estão sempre à distância de um telefonema ou de uma chamada de Skype. Já viajei com alguns, para desligarmos ambos do mundo e esquecer tristezas do foro amoroso. Nunca as minhas amizades foram ensombradas pelo desejo físico/carnal. Nada disso. A comunicação dá-se a outro nível, não passa pelo desejo físico, o que representa, já por si, uma libertação.

Se recuar no tempo, em abono da verdade o meu primeiro grande amigo foi o meu pai. Talvez o facto de ser a mais nova tenha contribuído para ser mimada por ele, não o nego, faz parte da vida. O meu pai, com a sua incrível sensibilidade e generosidade sempre teve tempo para me ouvir, me levar a passear, me incutir o gosto pela literatura e pela música e para me ensinar a dançar. Tive e tenho muita sorte em ter nascido na minha família, com pais e irmãos espetaculares. A minha imagem dos homens é até hoje uma imagem de integridade e de excelência, de independência, de fiabilidade e de segurança. Talvez tanta coisa boa junta não tenha contribuído para me defender da malandragem, mas a vida foi-me protegendo das versões masculinas menos dignas.

É fundamental para uma mulher ter bons amigos, homens em quem pode confiar, confidentes e conselheiros, seja para o coração ou para as finanças. Os amigos não se fazem, reconhecem-se, como disse Vinicius de Moraes. Podemos estar meses ou anos sem ver um amigo, mas quando o reencontro acontece, é como se nunca tivéssemos deixado de o ver. Um bom amigo é como um escudo para a tristeza, para a solidão, para o medo de falhar. Os amigos nunca se julgam, aturam-se com um sorriso e um abraço. E se forem a sério, ficam para a vida.

Já perdi alguns e foi como se um bocado de mim tivesse partido com eles. O Manel, o Carlinhos, o meu tio João. Penso neles quase todos os dias e vou estimando o melhor que posso aqueles que a via continua a abençoar com saúde. Festejo e celebro a amizade como um dos valores da minha vida. A amizade é à prova do tempo, da distância, dos amores de cada um. A amizade é leve, é eterna, é feliz e descomplicada. A amizade é uma das mais belas formas de amor. Sempre e para sempre.

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