Cão com Pulgas

Este espécime masculino é, na sua essência, um homem com problemas e que dá muito trabalho. mas é também um tipo bem-parecido, simpático e conversador que sabe agradar e seduzir.
07 jan 2016 • 12:21
Margarida Rebelo Pinto

Quem já leu o meu mais recente romance, ‘Mariana, Meu Amor’, não terá ficado indiferente à personagem de Laura, a melhor amiga da protagonista Alice, a quem dá bons conselhos graças à sua visão lúcida da condição humana.

A Alice existe na vida real, ela é a condensação de várias amigas próximas, daquelas que toda a gente devia ter, que nos puxam para a realidade e nos dão atiram a bóia quando vamos para fora de pé. A Laura somos todos nós, mulheres e homens, quando o Cupido não nos apanhou na curva da vida, deixando-nos incapazes de avaliar com objetividade e lucidez o que nos acontece. Cada pessoa deve ter na vida um bom contabilista, um médico amigo da família e duas ou três Lauras para nunca perder o Norte.

Há uns meses, uma das minhas Lauras alertou-me para um tipo de homem bastante comum, a que ela chama um cão com pulgas. Na sua essência, um cão com pulgas é um tipo que dá muito trabalho. Ou porque é confuso e não sabe o que quer, ou porque tem outra pessoa e não se decide, ou porque é inseguro e sofre de ataques de pânico cada vez que se sente feliz, ou porque é egoísta e pensa sempre nele antes de pensar nos outros, ou porque teve um problema de adição, ou porque é órfão e traumatizado, ou porque não gosta de trabalhar, ou porque levou com dois enfeites indesejados na testa, ou porque é um índio por natureza. Seja porque for, um cão com pulgas é uma pessoa com problemas.

Problemas temos todos, traumas também, o que nos distingue uns dos outros é a capacidade, a inteligência, a força e a vontade de os resolver. No fundo, é sobretudo uma questão de humildade. A humildade faz-nos reconhecer quais os problemas que nos estão a atrasar a vida e, a partir daí, a encontrar soluções, ou pelo menos a tentar. Ora o cão com pulgas, ou acha que não tem problemas nenhuns, ou sabe que os tem mas não está para se dar ao trabalho de os resolver. Olhar para o espelho é sempre duro quando este não nos mostra o que queremos ver, mas é como olhar para a balança; se estamos com peso a mais, só com dieta e ginásio é que conseguimos voltar ao peso ideal. Com os problemas, passa-se o mesmo. Se não os encararmos de frente, eles não se vão embora. Pelo contrário, o mais certo é que cresçam e ocupem um espaço cada vez maior na nossa vida.

O cão com pulgas é geralmente um tipo bem-parecido, simpático e conversador que sabe agradar e seduzir. Ele faz o elogio certo no momento adequado, ele mima com presentes atenciosos, ele dorme agarrado e diz-nos que somos lindas. O problema é o dia seguinte. Nunca sabemos bem o que anda a fazer e a pensar, porque nunca nos diz tudo o que faz nem o que pensa. Muitas vezes nem o próprio sabe o que sente, quanto mais dizer a alguém o que lhe vai no coração. Não é que seja mau rapaz, mas é como se lhe faltasse uma peça. Ou mais.

Queridas leitoras, prestem atenção a este espécime muito comum entre os homens e já agora, justiça seja feita ao outro género, não se tornem mulheres complicadas, inseguras, sempre prontas para fazer cenas, insatisfeitas com tudo, a cobrar o mau esquecendo o bom, numa palavra, chatas. Se não querem aturar um cão com pulgas, mandem-no embora e não pensem mais no assunto. O muro das lamentações nunca serviu para nada, a não ser para gritar alto os nossos desgostos. Mais vale virar as costas e seguir por outro caminho.

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