Desejo para que te quero

Casanova era um sedutor incorrigível e feliz com a sua natureza. O desejo não tem segredo, só mistério. Os amantes fortuitos são sempre campeões porque nunca sabem se existe uma próxima vez
03 mar 2016 • 15:20
Margarida Rebelo Pinto

Casanova, esse grande pirata do coração, dizia que o momento em que sentia mais desejo era quando subia as escadas. Casanova era um sedutor incorrigível e feliz com a sua Natureza. A sua obra literária constitui uma viagem aos costumes da alta burguesia e nobreza das grandes cidades da Europa no século XVII e sua vida atribulada contribuiu para a construção do arquétipo moderno do sedutor. Não é por acaso que também era um grande jogador: ao longo da sua vida ganhou avultadas somas de dinheiro, em qualquer tipo de jogo. Talvez acreditasse que a sorte protege aos audazes, como disse Plínio Velho quando tentava fugir da erupção do Vesúvio que soterrou a cidade de Pompeia. Os gases e vapores passaram-lhe por cima e morreu de asfixia. Quem tem lata tem quase tudo, mas também convém ter sorte.

Casanova foi um pouco de tudo: advogado, médico, violinista, espião, diplomata, mas acima de tudo um mestre do prazer carnal. Ou talvez seu escravo. Ou talvez ambos, porque é do senso comum que quando nos tornamos excecionalmente bons a fazer uma coisa, também nos tornamos prisioneiros dela.

O italiano de Veneza desenvolveu uma tática infalível para o sucesso nas suas inúmeras operações de sedução: ajudar a donzela ou senhora que se encontra em apuros com conselhos, presentes e gestos de atenção. Ele acreditava que não existia nenhuma mulher honesta de coração incorruptível que não sucumbisse ao sentimento de gratidão. É o clássico cliché de salvar a donzela em apuros, seja da sua prisão numa torre, de um dragão ou de uma bruxa malvada. Neste caso, para logo em seguida se meter em grandes sarilhos, pois com a mesma leveza com que subia as escadas para a possuir, também a descia de pé leve, muitas vezes fugindo de maridos ciumentos ou pais desesperados com o comportamento das filhas. Talvez no momento em que o desejo o cegava de prazer visse na mulher que possuía algum encontro específico e particular. Seja como for, depois de consumado o ato, o sedutor dava corda aos sapatos para a próxima aventura, que tanto podia ser outra mulher como uma partida de cartas.

O desejo não tem segredo, só mistério. Cada vez que um amante sobe as escadas sabe que o prazer o espera, apenas não sabe até onde pode ir esse prazer. Os amantes fortuitos são sempre campeões porque nunca sabem se existe uma próxima vez.

O amor precisa de espaço tal como o fogo precisas de ar. Isto é, no caso de existir amor sob a forma de paixão. Se não existir, o desejo dos amantes extingue-se ou passa para outro objeto de desejo, pois é mais importante o fim – erotismo e sexo –, do que o meio, a pessoas com que se pratica.

O desejo pode ser um forte aliado ou um poderoso inimigo. Dá-nos energia, adrenalina, faz-nos sentir super-heróis, é uma fonte de prazer e de vitalidade. Mas, como tudo o que é excecionalmente bom, deixa quase sempre um amargo de boca; a ausência, a incerteza, o silêncio vão tomando conta da realidade. Para os homens o desejo pode ficar dentro de uma gaveta que se abre e se fecha quando dá jeito, mas para as mulheres o desejo é uma entidade inquietante e presente. O ser humano precisa de conforto e de continuidade, precisa de segurança e de paz. Se o preço a pagar pelo desejo for a escravidão ao prazer, nenhum ser humano aguenta, nem mesmo sob a capa de um super-herói.

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