O meu primeiro beijo

As melhores relações começam sempre com um beijo perfeito. Se o beijo for bom, vai correr tudo bem. Se o beijo for espetacular, salve-se quem puder porque vem aí um tsunami.
14 jan 2016 • 17:37
Margarida Rebelo Pinto

O desejo aprende-se ou é inato? As duas coisas. Não sei se toda a gente sente desejo, mas sei que uma aprendizagem do desejo o potencia sempre mais e mais. É como o primeiro beijo. Não me refiro ao primeiro beijo inocente de boca com boca, dado de forma furtiva e nem sempre voluntária quando somos ainda crianças. Estou a falar do primeiro beijo a sério, com língua, em que descobrimos o prazer mais profundo.

As melhores relações começam sempre com um beijo perfeito. Se o beijo for bom, vai correr tudo bem. Se o beijo for espetacular, salve-se quem puder porque vem aí um tsunami. Mas para beijar bem é preciso saber o que estamos a fazer. Não é apenas uma questão de técnica, trata-se de perceber como o outro beija. É uma troca, um intercâmbio, um momento simbiótico, a ideia é receber e dar ao mesmo tempo. E como tudo na vida, quanto mais se pratica, melhores são os resultados.

O meu primeiro beijo foi catastrófico. Eu pensava que estava muito apaixonada por aquele rapaz de loiro de cabelos despenteados que era um dos mais populares do liceu e que, milagre dos milagres, reparou em mim. Com 14 anos não era fácil os rapazes repararem em mim porque eu era aquilo a que se chama um pau de virar tripas. Só tinha altura, não tinha formas. Se eles gostassem de conversar, então começavam a reparar depois de mais de uma hora a falar de música e de livros. Mas se fossem mais básicos, eu era transparente. Acontece que este rapaz não era nada básico e tenho agora a certeza que só deu pela minha existência depois de uma conversa acesa sobre Pink Floyd versus Supertramp. Eu gostava mais da primeira banda e ele da segunda. Dias depois, levou-me à paragem do 33 e deu-me a mão. Começou a chover furiosamente, ele abriu o chapéu-de-chuva e pôs o braço por cima dos meus ombros. Junto à paragem do autocarro, encostou-me a um muro e beijou-me sem aviso.

Detestei aquilo. A língua dele invadiu a minha boca e começou a dar voltas como se fosse a pá de uma ventoinha. Fiquei sem saber o que fazer e empurrei-o. Limpei a boca com constrangimento. Não me soube bem, tive a sensação de estar a lamber o fundo de uma lata de atum. Foi horrível. Tão horrível que quis esquecer o episódio, e só mais de um ano depois permiti que outro rapaz tentasse beijar-me. Tive sorte. Dessa vez correu tudo bem. Mas nunca mais esqueci a minha primeira experiência, aquela trapalhada junto ao muro debaixo de um chapéu-de-chuva com um rapaz de quem andei a fugir o resto do ano letivo. No ano seguinte mudei de liceu e nunca mais o vi.

Nunca me esqueci da sensação desagradável quando um beijo corre mal e aprendi que os beijos dizem muito, às vezes quase tudo sobre o outro e sobre o que sente por nós. Nada bate a magia de um beijo terno, demorado e apaixonado. Aqueles beijos que nunca sabemos quando acabam, sempre seguidos por muitos mais. Beijos antes de falar, assim que o outro chega, ou quando acorda ao nosso lado. Beijos que falam mais alto que todos os poemas e todas as canções pop. Beijos envoltos em abraços longos e apertados, as mãos a explorar o resto do corpo devagar, que nos fazem voar e põem os ponteiros do relógio a andar em sentido contrário. Beijos de quem ama e é amado, de quem sonha a dormir e acordado com o seu par. Beijos que só damos quando damos tudo.

Tal como o amor, estes beijos são um bem escasso e portanto, quando tropeçamos neles, convém ir ficando. Quem sabe, podem ser o arauto de uma grande história de amor.

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