Territórios e conquistas

É urgente transmitir à rapaziada que precisamos deles para nos protegerem e cuidarem de nós e dos nossos filhos, embora aparentemente tudo indique o contrário. É preciso mimá-los e pedir-lhes mimo
17 mar 2016 • 11:39
Margarida Rebelo Pinto

Imbuída de uma patologia ainda não catalogada no mundo da medicina tradicional à qual dei o nome de "Parite", há uns anos decidi dar ao meu cão uma namorada para lhe aliviar os dias de solidão e as noites de frio. A "Parite" é uma patologia que se manifesta pelo desejo constante de ver o mundo aos pares, desde candeeiros a molduras, casais e filhos, o Yin e o Yang, a terra e o céu, o sol e lua, a luz e a sombra. Sofrer de "Parite" é saber viver sozinho e mesmo assim nunca aprender a gostar. É ir todas as noites para a cama e pensar que falta ali uma respiração. É suspirar quando se vai a um casamento, desejando que os noivos nunca se zanguem. Se é verdade que nascemos e morremos sós e que disso ninguém nos livra, mais vale percorrer a existência com alguém do lado, desde que esse alguém valha a pena.

Voltemos ao meu cão, inteligente criatura, arraçado de pastor Alemão que percorria toda a área do muro e do portão ladrando ferozmente ao mínimo ruído ou movimento. Mister Big era esperto e aprendia tudo à primeira, ao contrário da sua namorada, uma cadela de raça pura, burra como uma porta, de seu nome Cuca – abreviatura de maluca – talvez o ser vivo mais desorientado com quem interagi em toda a minha vida. Tudo que que Big tinha de fleuma, tranquilidade e bom senso, faltava à sua consorte, toda ela agitação e dúvidas.

Estas adoráveis criaturas entretinham-se a destruir o jardim de forma sistemática a criativa, pelo que me vi obrigada a mandar motar uma cerca eletrificada – de baixíssima voltagem, que não provoca dor mas é o suficiente para dissuadir qualquer tentativa de proximidade – na chamada área ajardinada para poupar os gastos extras derivados de escavações e outras tropelias da autoria da dupla dinâmica. No dia seguinte o Big encostou a nariz à cerca e perante o resultado desagradável, não mais aproximou do arame. Já Cuca, talvez por ter memória curta, ou por ser apenas distraída, quase todos os dias encostava o focinho à cerca para logo recuar, perplexa e baralhada. O que mais me impressionou foi o forte choque psicológico e, diria até, emocional, que a alteração do habitat provocou no meu cão; com o seu território drasticamente reduzido, Big deitou-se à soleira da porta, amarrou o burro e não ladrou durante duas semanas.

Ora isto tem-me feito pensar no que as mulheres têm andando a fazer aos homens nas últimas décadas. Não me levem a mal queridas leitoras, mas estou em crer que as conquistas femininas no mundo do trabalho, dos negócios, da independência financeira e em tantas outras áreas do quotidiano desequilibraram o ecossistema, e desde então não tem sido fácil afinar o piano. É urgente transmitir à rapaziada que precisamos deles para nos protegerem e cuidarem de nós e dos nossos filhos, embora aparentemente tudo indique o contrário. Camille Paglia, a feminista americana que anda a dar a volta ao estômago às outras feministas pelas suas ideias provocadoras, tem uma certa razão quando afirma que o preço do sucesso é pago em solidão. Descendente de italianos, Camille defende a recuperação do papel tradicional da mulher no quotidiano. Não é clara quanto à gestão da carreira entre tachos e fraldas, mas enaltece a mulher latina por ser mais calorosa e dedicada do que a anglo-saxónica.

Como podemos recuperar o equilíbrio neste universo frágil e mutável que é o das relações amorosas/ conjugais? Será que os homens continuam a preferir uma mulher que lave e cozinhe, limpe o ranho das crianças e não faça ondas, ou será que conseguimos, com a nossa revolução, que entendam que uma mulher pode ser aquilo que Marco Paulo apregoa num dos seus hits, "uma lady na mesa, uma louca na cama"? Tudo muda devagar, está nas nossas mãos demonstrar-lhes que podemos ser tudo debaixo do mesmo teto. Se os mimarmos e pedirmos mimo todos os dias, talvez ajude.

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