Uma coisa é uma coisa

Há aplicações para telemóvel cujo objetivo é conhecer pessoas do sexo oposto rapidamente e em força. Basta estar na área. Não consigo perceber as pessoas que se dão a conhecer ao desbarato.
18 fev 2016 • 17:39
Margarida Rebelo Pinto

Há meses que oiço falar nas aplicações para mobile com o objetivo de conhecer pessoas do sexo oposto rapidamente e em força num raio próximo para encontros do estilo "toca e foge", "é tão bom não foi", "até qualquer dia ou até nunca mais". Ouvi dizer que as ditas aplicações respondem pelos nomes de Tinder e Happn, entre outras, e que alguma rapaziada – solteira e casada – se tem entretido com esta brincadeira, tirando partido de Lisboa se ter tornado num dos destinos preferidos na Europa. Pois claro, a cidade é maravilhosa, cheia de colinas e de lugares secretos e o tuga é um tipo predisposto por Natureza a agradar ao turista. Negócios como os arrendamentos de curto prazo explodiram, a cidade é todos os dias invadida por turistas que vêm de todos os cantos do mundo – não se espantem do mundo ter cantos, apesar de redondo, pois na vida são muitas as evidências que não se baseiam em qualquer explicação lógica – encantados com a luz, o património e a gastronomia alfacinha.

Lisboa é decerto uma das cidades mais queridas e românticas que conheço, a par de Paris, Florença e Veneza. É muito fácil um sonhador apaixonar-se assim que chega. Basta ficar sentado num dos muitos miradouros durante alguns minutos para se instalar um certo frio na barriga perante tanta beleza. Se neste idílico cenário, o telemóvel nos mostrar uma carinha laroca que nos manda um coração a dar sinal que gostou da nossa, o sonho completa-se. Pelo menos durante um par de horas.

Nunca olhei para as novas tecnologias com desconfiança ou preconceito. Se é este o ritmo do mundo e o caminho traçado pela evolução dos tempos e dos costumes, então embora lá ver como funciona, pelo menos de fora. As histórias que oiço são todas parecidas: a rapaziada despacha elementos do sexo oposto de qualquer nacionalidade – incluindo a prata da casa – e passa à seguinte. É mais ou menos como ter uma coleção de cromos, mas em vez de colar cada cromo um a um até conseguir ganhar o poster da caderneta, vai-se atirando miúdas contra a parede e de vez em quando sai uma na rifa tão gira e tão boa que ganha o estatuto do poster. Nada de mal, porque elas não se importam e até agradecem. "E depois?" Perguntei com alguma ingenuidade à rapaziada aderente. "E depois nada, cada um vai à sua vida e segue o seu caminho", responderam com um vago encolher de ombros. Não acho nem bem nem mal, só que para mim não serve.

Prefiro conhecer pessoas através de outras pessoas e fazer amigos através de outros amigos. Mil vezes conversar a quatro olhos do que atrás de uma janela debruada a azul ou escudado pela moda do ‘Whatsapp’. E, na dúvida entre telefonar ou teclar, prefiro sempre a voz. A voz, o olhar, as pausas, a respiração de quem nos ouve, nada disso chega por via virtual. Perde-se na nuvem. Guardo a magia do virtual para os amigos de longa data que vivem longe: Londres, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Singapura e Ilha da Reunião.

Não faz sentido passar dias a teclar com uma pessoa que vive na mesma cidade e às vezes no mesmo bairro e que não é paraplégico nem sofre de limitações de locomoção. Muito menos conhecer alguém só porque tem uma cara simpática e "está na área". A minha área é uma propriedade privada delimitada por muros, guardas e holofotes. Em caso de emergência, instalo vedação eletrificada, torres de vigia com guarda armada e mando escavar fossos nos quais crio um ecossistema para crocodilos. A área é o meu território, cada território é de cada um e cada um tem o direito de o defender como entende. Não consigo perceber as pessoas que se dão a conhecer ao desbarato. Parece que está tudo em saldos, aproveite a promoção, a ocasião faz o ladrão e a localização geográfica faz o encontro. Qual encontro? É bom não confundir encontrar pessoas com andar aos encontrões. É como aquelas pessoas que sabem jogar xadrez por que aprenderam a mexer as peças. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

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