Nostalgia

Há aqui uma calma perto do abismo que é maravilhosa.
17 mar 2018 • 00:30
Fernando Sobral
Moby, ao fim de tantos anos, ainda busca a felicidade numa floresta cerrada. É uma tarefa difícil, mas nunca se sabe se não poderá ter um final feliz. O seu novo álbum, ‘Everything Was Beautiful, And Nothing Hurt’, é mais uma expedição sonora nessa rota. É um álbum conceptual situado num universo pós-apocalíptico, onde até Deus terá virado as costas aos humanos. A inspiração para o disco vem de um poema sombrio de W. B. Yeats, ‘The Second Coming’. Moby pode tentar descobrir a felicidade, mas ela não existe aqui. As influências, desde o início, parecem ser muito claras: os anos 90 e mais concretamente Portishead, Massive Attack, e mesmo os esquecidos Smith & Mighty. Mas, curiosamente, esta busca do passado parece garantir algo de frescura nestes dias de 2018. O trip-hop transpira por aqui. ‘The Tired and the Hurt’ e ‘Welcome to Hard Times’ são, por exemplo, exemplos perfeitos dessa beleza melancólica onde o desespero e a desilusão lírica encontram uma melodia envolvente. Há aqui uma calma perto do abismo que é maravilhosa, mesmo que nos deixe nervosos. Talvez se compreenda este disco como uma sequência do que ele foi fazendo desde o seu primeiro álbum, de 1992. Afinal, desde então, Moby explorou diferentes vias musicais, do rock alternativo, ao trip-hop, ao som ambiental ou à música electrónica de dança. Desde o tema inicial deste seu último disco, o regresso a algum do seu passado está explicado. Mesmo quando o ritmo acelera, noutros temas, há algo de planante no universo de Moby. Que busca no passado musical os ecos do futuro.
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