Tempestade

Kate Tempest foi um dos segredos mais bem guardados de 2016.
07 jan 2017 • 00:30
Fernando Sobral
Kate Tempest foi um dos segredos mais bem guardados de 2016. E o seu disco, ‘Let them Eat Chaos’, uma verdadeira surpresa, como um sol à volta do qual outros discos se comportam como mero sistema solar.

Basta começar por escutar ‘Picture a Vacuum’. Está ali tudo: a voz directa, a poesia poderosa, o som cru, como no melhor hip-hop ou rap. O nome desta nova criadora sintetiza tudo: Kate é tempestade pura para estes dias em que os povos parecem indiferentes ao que se passa à sua volta.

Tecnicamente falando, Kate é uma poeta que faz espectáculos, um cruzamento entre uma rapper e algo mais sólido culturalmente. As suas palavras estão cheias de significado, de questões, de interrogações. O disco é mais do que uma colecção de temas: é um filme, cheio de pequenas histórias contadas em rima rap. Algo que tem causado dúvidas em muitos: Kate Tempest é branca, mas conhece as ruas mais sombrias de Londres.

Kate canta o apocalipse que vê à sua volta (a pobreza, a gentrificação forçada, a catástrofe ambiental, a crise dos refugiados, a situação dos emigrantes) e junta-lhe um humor ácido desconcertante. São frases puras e duras que saem da sua voz. Este disco é um grito: e é disso que a música muitas vezes precisa.

Um tema poderosíssimo é ‘Europe is Lost’, onde se diz tudo sobre o estado do continente em que vivemos. Ou sobrevivemos. Precisamos de "acordar" e de "amar mais": é essa a mensagem de Kate Tempest, poeta sem fronteiras, que utiliza a linguagem do rap para dizer coisas muito sólidas e inquietantes. Este é um dos "discos perdidos" de 2016.
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