Confissões
Adriano Luz: “O mais importante é o amor”
Actor confessa que é a trabalhar que se sente bem
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28/07/2012 10H30
Foto: João Miguel Rodrigues

Com 53 anos e 33 de carreira, o actor Adriano Luz confessa que é a trabalhar que se sente bem. Sem conseguir estar parado, diz que gere na perfeição a vida profissional e pessoal.

- Terminou a novela ‘Remédio Santo’ (TVI). Está a gozar férias?

- Estou em semifolgas. Tenho feito algumas coisas que tinha agendadas, como um filme de Billie August, que esteve a ser rodado em Portugal e, neste momento, estou no filme de Joaquim Leitão.

- Sabe bem depois do ritmo intenso de uma novela?

- Se estivesse parado acho que morria. Só voltarei a gravar novela lá para Outubro e vou começar a ensaiar uma peça no Teatro Nacional, com a Paula Mora e a Margarida Marinho. Chama-se ‘Cenas da Vida Conjugal’ e estreia a 20 de Setembro.

- Este é um ano em que faz teatro, cinema e televisão…

- Nunca faço só uma coisa e realizei o meu primeiro filme, que estreei em circuito comercial anexado ao filme do Fernando Lopes, ‘O Dia Mais Feliz da Tua Vida’. Foi efectivamente um ano bom.

- Muito trabalho, então…

- Sou um privilegiado a esse nível, porque tenho trabalho e gostava que continuasse assim por todas as razões, mas principalmente porque acho que o trabalho dá imensas coisas. Percebo lindamente o pavor e a angústia que as pessoas sem trabalho vivem. Para quem tem família ou não… deve ser tremendo acordar todos os dias de manhã sem saber o que se vai fazer.

- Apesar de não conseguir estar parado, tem de estar ligado ao teatro, televisão e cinema?

- Idealmente sim, porque gosto muito da variedade. Gosto de tocar vários instrumentos. Fiz muito teatro antes de fazer televisão, agora faço menos.

- É uma opção?

- Tem a ver com uma série de circunstâncias. Também oportunidade, interesse, vontade. O teatro é o sítio onde mais me desgasto. Foi o que mais fiz na vida, mas onde mais me desgastei emocionalmente.

- Porquê?

- Porque quanto menos faço mais me desgasto. A entrega é a mesma, a questão é a angústia de fazer, a responsabilidade, porque no teatro convivemos com grande parte dos nossos medos e há peças mais fáceis e outras mais difíceis. O teatro é onde os actores mais treinam, aprendem e arriscam.

- Ainda fica nervoso?

- Agora é que fico muito. Dantes, não. Agora é que tenho medo. Houve uma altura que, se calhar, fazia três espectáculos por ano. Agora faço um de dois em dois anos. Nos ensaios é diferente, porque me divirto. Mas, por exemplo, no dia da estreia, fico com um nó no estômago, mas acho que isso acontece a todos os actores. Conforme vão envelhecendo, vão ficando mais angustiados pelo facto de estarem em cima do palco.

- E superstições?

- Tenho a mania de que não sou supersticioso, mas acabo por ser. Aliás, acho que os actores são todos. São superstições banais. Imagine-se se, porventura, na estreia lavo as mãos antes de entrar por um acaso qualquer, se calhar faço isso sempre. Tendencialmente repetem-se os mesmos gestos.

- Acha que, no fundo, precisa de uma certa rotina?

- De uma rotina e de sacralizar alguns momentos. E quando digo sacralizar não tem nada de religioso, são pequenos gestos. Eu, por exemplo, gosto de chegar uma hora antes dos espectáculos, mas o não fazer nada é o tempo de consciencialização e é este cerimonial que tendencialmente repetimos. Tudo isto já não acontece na televisão e no cinema.

- Acha que o cinema e a televisão são mais industriais e o teatro mais emocional?

- Sob um determinado ponto de vista, sim. Principalmente, porque no teatro estamos completamente expostos. A concentração em teatro é muito diferente. Em cinema, por exemplo, tenho de ter a noção de onde está a câmara, onde está a luz, no fundo, há uma espécie de relação fria. A questão técnica é muito importante e no teatro é mais emotivo. Convém até não haver pensamentos paralelos, que a mente esteja liberta.

- Qual é o balanço que faz de 33 anos de carreira?

- Não posso dizer que sempre quis ser actor. Em criança queria ser jogador de futebol, depois bombeiro e por aí fora. A forma como cheguei a esta profissão não é por acaso – porque acho que nada é por acaso –, mas foi um namoro à distância. Ao princípio parecia um ‘flirt’, mas depois deu em casamento. Portanto, aquela ideia de que sou isto e não outra coisa na vida instalou-se sem eu dar por isso.

- O início foi difícil.

- Foi. Era um tempo em que não havia a oferta de trabalho que há neste momento. Não havia ‘Morangos com Açúcar’, os jovens não tinham televisão e começava-se a fazer teatro.

- Além de actor e realizador, é também director da Casa da Criação. Como vai este projecto?

- A Casa da Criação, de que eu me orgulho de ser director há alguns anos, está numa fase óptima de criatividade. Além da nova novela de António Barreira, dois novos projectos – ainda no segredo dos deuses – estão a ser desenvolvidos. Temos também em carteira cerca de uma dúzia de projectos que, a qualquer momento, poderão começar a ser desenvolvidos. E nunca é de mais sublinhar os constantes êxitos que são escritos pelos nossos autores/guionistas, desde os ‘Morangos com Açúcar’ até ‘Doce Tentação’, assim como a conquista do primeiro Emmy pela ficção portuguesa.

- Tem uma vida profissional muito preenchida, é casado e tem dois filhos…

- Sim, o Afonso, de 16 anos, e o Salvador, de sete.

- São nove anos de diferença entre os irmãos. Como pai sente algumas mudanças?

- Sim. Sou mais paciente com o pequenino, o taxímetro já começou a contar para o mais velho: É aquela coisa ‘tens de…’ Para o mais pequeno ainda não, ainda estamos na fase do ‘vamos andar de bicicleta’. E é tudo mais fácil.

- Tem uma carreira absorvente. E tempo para a família?

- Tenho muito tempo para a minha família. Com o mais pequenino – que é quem me pede mais tempo, porque o outro já se quer ver livre de mim – vou ao futebol, dou passeios de bicicleta... Eu e a mãe dividimos muito bem as competências.

- Como é para os seus filhos gerirem o facto de o pai ser actor e uma figura pública?

- Acham graça. Os filhos dos actores, como já nasceram habituados a isso, não estranham. Estranham mais os amigos. O facto de sermos conhecidos é um privilégio, passamos a estar perto das pessoas e olham para nós como família. Nunca nos sentimos estranhos, as pessoas conhecem-nos e eu não tenho nada do que me queixar. Os meus vizinhos já não me estranham e, às vezes, ainda sou o pai do Salvador como era o pai do Afonso.

- Para o seu filho mais velho, por exemplo, não lhe passa pela cabeça seguir as suas pisadas?

- Passará, claro. Não lhe digo para não ser, apenas lhe digo que não pode ser actor sem estudar. Filho meu assim será, se quiser ser actor vai estudar. E com esta perspectiva de trabalho para ele já não é tão interessante esta profissão.

- É casado com a actriz Carla de Sá. Há quanto tempo?

- Quase há 20 anos, o que é uma raridade.

- Qual é o segredo para 20 anos de casamento?

- Amar a pessoa com quem se vive. Saber negociar bem as coisas da vida e querer insistir. Fundamentalmente, é perceber que há compromissos que se assumem e que não podem ser quebrados à primeira zanga. Perceber que essas zangas fazem parte das pessoas que se gostam. Eu não concebo as pessoas casarem e ao fim de um ano estarem separados, então quando há filhos... Cada um sabe de si, mas para mim não concebo. Como sou filho de pai que saiu de casa, provavelmente até por isso penso assim. O meu pai foi-se embora quando eu era bebé e nunca mais o vi. Esta questão de acabar ao primeiro entrave, muitas vezes, é por falta de insistir. Claro que o mais importante de tudo é o amor.

- E é fácil estar casado e trabalhar com a sua mulher?

- É. A Carla é a pessoa que melhor me entende, por isso é que estou casado há 20 anos. Fazemos uma óptima equipa.

- Tem 53 anos, sente o peso da idade?

- Não é bem o peso. Por exemplo, fui há nove anos viver para Azeitão, deixei a loucura de Lisboa, e se calhar há 20 anos não iria para lá, queria estar no meio da movida.

- Porquê a decisão de trocar Lisboa por Azeitão?

- Engraçado que a minha mulher, que tem menos 16 anos do que eu, é que teve essa ideia, de irmos para o campo. No início dizia que não, mas agora não quero outra coisa. Sabia que para o meu filho mais velho seria extraordinário poder crescer num sítio em que pudesse ter liberdade… Depois, sentimos que já tínhamos vivido a fase do ‘bora lá sair à noite’. Lembro-me de que quando casámos, fizemos a despedida de solteiro juntos e ficámos de rastos. Andávamos sempre juntos em festas. E cansámo-nos, o que faz parte.

- E isso tem a ver com a idade?

- Não é ficar mais velho, é ficar com outra idade. Se entendermos que envelhecer é mudar de idade… Se calhar estou a enfabular, mas envelhecer não é só reumático e dores de joelhos. O que eu acho é que, com a idade, perdi a paciência para algumas coisas, mas ganhei tempo para outras: o prazer de estar com amigos a jantar em casa. 

INTIMIDADES

- Quem convidaria para um jantar a dois?

- A minha mulher [a actriz Carla de Sá].

- Quem é para si a mulher mais sexy?

- Depende dos dias.

- O que não suporta no sexo oposto?

- A estupidez.

- Qual é o seu maior vício?

- Não parar quieto.

- Qual foi o último livro que leu?

- ‘Anatomia dos Mártires’.

- O filme da sua vida?

- ‘Cinema Paraíso’.

- Cidade preferida?

- Lisboa.

- Um desejo?

- Que não me fizessem estas perguntas...

- Complete. A minha vida é...

O que é...

PERFIL

Adriano Luz nasceu no Porto, no dia 9 de Abril de 1959. É actor, encenador e realizador. Na televisão destaque para as novelas ‘Remédio Santo’ e ‘Espírito Indomável’ (ambas da TVI). No cinema participou em inúmeros filmes, como ‘Tráfico’. Este ano, vai fazer a peça de teatro ‘Cenas da Vida Conjugal’.

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