A dependência foi uma besta

Tenho tantos anos de vida quanto Jorge Palma tem de carreira. Recordo-me de o ter começado a ouvir cedo, mas já não consigo recuar a ponto de me lembrar quando ou porquê.
30 set 2017 • 00:30
Miguel Azevedo
Jorge palma... Tenho tantos anos de vida quanto Jorge Palma tem de carreira. Recordo-me de o ter começado a ouvir cedo, mas já não consigo recuar a ponto de me lembrar quando ou porquê.

Permitiu-me a minha profissão que viesse a cruzar-me com ele várias vezes em concertos e especialmente em entrevistas. Recordo-me de uma tarde em 2001 quando me abriu as portas de sua casa, à data ali na rua de S. Bento, em frente à casa da Amália Rodrigues. Entrei pela sala onde se amontoavam no chão livros de banda desenhada de Corto Maltese e Milo Manara e alguns discos, entre os quais uma relíquia  em vinil, o ‘The Nine Billion Names of God’, o primeiro single gravado em 1972 e aquele que leva hoje Jorge Palma a comemorar 45 anos de carreira. Na sala não havia mesas nem cadeiras, porque o espaço tinha servido na véspera para a gravação do videoclip de ‘Dormia tão Sossegada’.

Acabámos na cozinha, até o ultimo raio de luz nos obrigar a descer ao café. Na altura ainda a "dependência era uma besta" e Palma ainda falava do álcool com alguma condescendência. "Para mim, o ir para o palco é uma festa e uma festa sem vinho não é festa", dizia-me.

Por essa altura já os espetáculos de Palma eram conhecidos pelas gafes, uma nota ao lado, um tom de voz que não saía ou um verso que era esquecido. "Mas eu não quero perpetuar essa imagem.

Não quero que as pessoas vão aos meus espetáculos à espera de ver uma palhaçada qualquer.

Não me envergonho das minhas falhas mas também não me orgulho", dizia-me na altura. De lá para cá, Palma foi obrigado a largar a bebida (a saúde exigiu-lhe isso). Hoje garante que esse é assunto encerrado, que não sente necessidade de beber, que nem lhe faz confusão estar perto de quem bebe, mas que não se arrepende dos excessos. "Fiz muita merda, mas prefiro pensar que fiz mais mal a mim do que aos outros", diz.    
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