Honrar a história

O Festival Vilar de Mouros nasceu, em 1965, como um projecto megalómano, pelas mão cirúrgicas de um médico.
18 ago 2018 • 00:30
Miguel Azevedo
Numa altura em que não havia dinheiro para investir em música, em que não existiam grandes espaços para tocar, nem patrocínios, nem promotores, nem empresários da cultura, o Festival Vilar de Mouros nasceu, em 1965, como um projecto megalómano, pelas mão cirúrgicas de um médico, António Augusti Barge, e da sua família.

A ideia inicial era divulgar a música popular do Alto Minho e Galiza, mas em 1971 o evento ganhou logo a sua primeira edição de projecção internacional com Elton John como atração principal. Os prejuízos, no entanto, quase que matavam o evento ainda a viver a sua ‘infância’ e durante muitos anos, a família Barge teve que conviver com as dívidas contraídas (ao todo foram gastos cerca de 2500 contos pagos, sendo que só Elton John custou 600.

Rezam as crónicas da altura que o prejuízo final terá sido de 1700 euros). Portugal vivia tempos ainda tão cinzentos que não só a própria PIDE fez questão de se misturar entre o público como até a Igreja pediu aos pais para não deixarem os filhos participar.

Na altura as vias de comunicação eram más e não existiam, como hoje, os passes combinados com viagens incluídas, nem promoções da CP pelo que a organização espalhou pelas estradas de Portugal um singelo pedido: "Senhores Automobilistas! Dêm boleia aos Jovens que nos dias 7 e 8 de Agosto se dirijam para o Festival Pop em Vilar de Mouros".

Em 1982 o Festival voltou ao local do crime, com Echo & The Bunnymen, Carlos Paredes e U2, numa altura em que a banda de Bono tinha apenas dois discos editados. De lá para cá, realizaram-se mais treze edições, sempre de forma intermitente, mas sempre com um desafio inerente: o de reinventar o woodstook português. Até porque é preciso honrar a história que ficou para trás.
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