O salvador do festival

Conheci o Salvador Sobral no início deste ano ainda na ressaca do lançamento do seu disco de estreia e numa entrevista a propósito do arranque de uma nova digressão.
11 mar 2017 • 00:30
Miguel Azevedo
Desejo... Conheci o Salvador Sobral no início deste ano ainda na ressaca do lançamento do seu disco de estreia e numa entrevista a propósito do arranque de uma nova digressão. Lembrava-me visualmente de um puto de 19 anos, com pinta de surfista, que tinha passado pelo ‘Ídolos’ onde chegou a ser chamado de arrogante.

De repente, Salvador Sobral tinha crescido, já falava em sentimentos de amor, de dor e perda e de personalidade artística. "Ainda não sei se me orgulho dela, mas pelo menos já não me chateia", dizia-me. Obcecado por Chet Baker, foi nele que descobriu emoções puras em forma de música.

Durante muito tempo, só pensava em imitá-lo, em andar como ele e em dizer coisas que achava que ele podia ter dito. "Acho que só não tomei heroína nem nunca me injetei porque tenho medo. Se não tivesse se calhar tinha experimentado só para saber o que ele sentia", dizia-me. O Salvador Sobral, que venceu o renovado Festival da Canção, é, por ventura, o salvador de um evento que estava moribundo, preso a preconceitos e a mitos. Não importa que figura Salvador fará na Eurovisão. Parte da alma portuguesa vai com ele para Kiev. Está ali tudo como ele me dizia sobre Chet Baker: "angústia, amor e melancolia".

Acresce uma voz apaixonadamente dilacerante (será que isto existe?). A canção ‘Amar pelos Dois’ podia ser um fado, mas é uma música pop/jazzy, sem guitarras portuguesas, mas desoladoramente bela, com piano e muitas cordas, que fala de nós, de todos nós, de alguém que viveu para amar e já sofreu. Fala de uma certa saudade, de destino e de desamor. Tão mundano, tão português. Não é "foleiro", não, Salvador. É lindo. "O que eu mais quero é que as pessoas adorem ouvir-me", dizia ele há oito anos, ainda no ‘Ídolos’. Eu diria que se é só isso que tu desejas, Salvador, então é muito pouco.      
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