O salvador sem medo

A vitória de Salvador Sobral na Eurovisão é a vitória da arte da música sobre a música sem arte.
20 mai 2017 • 00:30
Miguel Azevedo
Talento... A vitória de Salvador Sobral na Eurovisão é a vitória da arte da música sobre a música sem arte, do essencial sobre o acessório, do orgânico sobre o plástico, do talento sobre a pornofonia. Sim, o tal jornal espanhol tem razão, Salvador fez batota ao levar uma boa canção para a Eurovisão e com isso, digo eu, baralhou os entendidos e claro… as contas. Salvador salvou o Festival da Canção em Portugal e poderá ter salvo também o da Eurovisão há muito tempo formatado por baixo. Salvador disse-o, sem medo, com o atrevimento da juventude, logo em palco para todo o Mundo ouvir, que música não é fogo de artifício.

A questão nunca foi saber se a canção de Salvador era canção para a Eurovisão, mas sim se a Eurovisão estaria pronta para a receber a canção do Salvador. O interesse do Mundo por aquela música escrita por Luísa Sobral é, no fundo, o mesmo que o Mundo tem pelo fado: uma música simples, sensível, que vive da voz e da interpretação de alguém com carisma, no caso, de alguém que anda ali entre um falso introvertido e um modesto extrovertido. Salvador Sobral é natural, é autêntico, é genuíno, tão da escola do ‘espontâneo’ e do ‘improviso’ que chegou a ‘passar-se’ com os ensaios em Kiev. ‘Amar Pelos Dois’ está ali entre a canção de embalar e o smooth jazz, numa quase declaração de amor.

Quem já não esteve tão apaixonado a ponto de achar que conseguia amar por si e pelo outro? Ninguém sabe o que virá depois, nem o que será o futuro daquele cantor delicado e franzino, de roupas largas e cabelo desgrenhado, que um dia venceu a Eurovisão no mesmo dia em que morreu o seu maior ídolo: Chet Baker (desaparecido em 1988), mas se um dia, daqui a muitos anos, perguntarem por si, e se por acaso alguém não se recordar dele ou as novas gerações nunca tenham ouvido falar, digam simplesmente que ele viveu para... cantar.  
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