Uma questão de sensibilidade

Capicua é a melhor coisa que aconteceu ao hip-hop em Portugal em muito, muito tempo.
27 mai 2017 • 00:30
Miguel Azevedo
Ousadia... Já aqui falei dela várias vezes: Capicua é a melhor coisa que aconteceu ao hip- -hop em Portugal em muito, muito tempo. E digo-o não só pelo contributo artístico e valor criativo acrescentado, mas por ousar ser uma mulher num mundo de homens.

O hip-hop ainda é, porventura, um meio machista e preconceituoso, mas sobre isto a própria fala nas próximas páginas no âmbito do projeto Língua Franca, já muito elogiado por Caetano Veloso. Mas há outra mulher com quem tive o prazer de falar esta semana, que, apesar de ser da área do fado, também ela anda a tentar sobreviver num mundo dominado por ‘eles’ Marta Pereira da Costa não canta, mas toca, como poucos, guitarra portuguesa, um instrumento tradicionalmente ligado aos homens.

Deixou a engenharia e construiu uma carreira literalmente a pulso, com tudo o que isso lhe trouxe de sabor amargo. "Sinto que tenho de trabalhar o dobro para provar que aquilo que faço é sério", dizia-me quase em jeito de desabafo. "Há portas que se fecharam que não se deviam ter fechado." Ainda começou no piano, mas chegou à guitarra portuguesa aos 18 anos, porque o pai gostava. Ia para os fados e pedia para se sentar estrategicamente ao lado dos guitarristas. E assim foi aprendendo.

O início a solo não foi fácil. "Chegava a vomitar antes de entrar em palco. Tinha terror do público e só resolvi o problema quando descobri uns calmantes milagrosos que têm um efeito de quatro horas e me tranquilizam antes dos espetáculos. Hoje sou quase a ‘dealer’ de muitos artistas", ironiza Marta, que acredita que, em palco, uma guitarrista mulher tem muito mais para oferecer do que uma cara bonita, uma saia traçada ou uns saltos altos: "Uma guitarra nas mãos de uma mulher é atacada de forma diferente. Há outro toque e outra sensibilidade".
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